Saltarello
Os ônibus partiam e voltavam
nos horários pré-estabelecidos todo dia.
As previsões do tempo eram exatas,
a rua perpendicular dava na paralela,
as crianças só adoeciam depois das nove
- horário em que a enfermaria abria.
Dormir, ir, comer. Comer, ir, dormir.
E todos os dias eram um só dia,
e todo o mundo era um só mundo.
Comer, ir, dormir. Dormir, ir, comer.
E tudo o que era já tinha sido descoberto,
e nada que não já fosse nunca mais seria.
Dormir, ir comer. Comer, ir dormir
A cortina abrindo mandava comer, ir e dormir.
Então, dormir, ir e comer era o que ele fazia.
Sem descaso, sem pausa, sem burocracia.
Comer indo dormir. Dormir indo comer.
Até o dia em que as paredes do quarto brancas
fossem pela primeira vez pintadas de sombra.
Uma apenas. De tamanho mediano,
informe, quieta, tendida no teto.
Dormir era dormir sob a sombra
As ruas esquadrinhadas por linhas
que de tão retas doíam aos olhos
foram abrindo passo, mostrando atalhos,
se abrindo a ruelas, abrigos e valas.
E sombras.
Ir era ir pela sombra.
Até o dia em que o prato tão verde
se foi amarelando, apimentando,
passou para lilás, depois virou sombra.
Comer era comer a sombra
A sombra não bem uma sombra,
já que não sombra de estantes,
nem sombra de filmes caseiros:
era uma sombra que era um silêncio.
E o silêncio era um desejo,
a sombra de todo silêncio quebrado.
Despertaram-na com um sôfrego resvalo...
Despertaram-na com um sôfrego resvalo
- sob sonho de lençóis de negro estrelados –
Ao se despejarem cálidas pelo talo
Iluminuras de crisântemos raiados.
Vôlto à esquerda o jovem torvo –
curto abalo –,
Ela ouviu da sacada os últimos miados
E então se sentiu cair – lá fora o galo –
Com os escuros cachos fluindo-lhe aos lados.
Daquela mesa de café ainda tão posta,
Onde era a sobra dos outros ausente,
Sua mãe bafora – reta e vã – já tão
reposta:
"O que assim foi está feito. Seja valente:
Querida, ontem, antes de aportar à costa…"
"Meu avô morreu, mamãe", ela inclemente.
Oh, voa pra casa, meu bem
oh, voa pra casa, meu bem:
cada folha do calendário cai
com este peso que somente tu deixas
sobre a colcha fria e amarrotada.
sempre teu mudo relógio sussurra
- oh, voa pra casa, meu bem –
quando, no escuro, minha sombra larga
recolhe os estilhaços de mim mesma.
e como cada raio de alvorada
beija a amante noturna, dizendo:
- oh, voa pra casa, meu bem –
deixo teu fio passar entre meus dedos.
pois, contigo, a eternidade é fato;
o fato, eternidades sem ti:
como duas maresias inadiáveis,
nos temos ancorado no litoral
- oh, voa pra casa, meu bem.
A noite
O silêncio cobrindo o asfalto,
soluçando quebra-molas, esquinas,
se unindo ao volante, para-brisa.
Gelando seus dedos o retrovisor:
você mexia o olhar para fora
com o mesmo e duro estalado grave
que a coisa grudava em minha vista
o cinza enegrecido de trás.
- Ainda bons amigos - claro! - né?
O silêncio se sentou bem ao lado.
|