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Márcio d'Oliveira
(1986 Teresina/Piauí)

 

 


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Saltarello

Os ônibus partiam e voltavam
nos horários pré-estabelecidos todo dia.

As previsões do tempo eram exatas,
a rua perpendicular dava na paralela,
as crianças só adoeciam depois das nove
- horário em que a enfermaria abria.

Dormir, ir, comer. Comer, ir, dormir.

E todos os dias eram um só dia,
e todo o mundo era um só mundo.

Comer, ir, dormir. Dormir, ir, comer.

E tudo o que era já tinha sido descoberto,
e nada que não já fosse nunca mais seria.

Dormir, ir comer. Comer, ir dormir

A cortina abrindo mandava comer, ir e dormir.
Então, dormir, ir e comer era o que ele fazia.
Sem descaso, sem pausa, sem burocracia.

Comer indo dormir. Dormir indo comer.

Até o dia em que as paredes do quarto brancas
fossem pela primeira vez pintadas de sombra.

Uma apenas. De tamanho mediano,
informe, quieta, tendida no teto.

Dormir era dormir sob a sombra

As ruas esquadrinhadas por linhas
que de tão retas doíam aos olhos
foram abrindo passo, mostrando atalhos,
se abrindo a ruelas, abrigos e valas.
E sombras.

Ir era ir pela sombra.

Até o dia em que o prato tão verde
se foi amarelando, apimentando,
passou para lilás, depois virou sombra.

Comer era comer a sombra

A sombra não bem uma sombra,
já que não sombra de estantes,
nem sombra de filmes caseiros:
era uma sombra que era um silêncio.

E o silêncio era um desejo,
a sombra de todo silêncio quebrado.

 

Despertaram-na com um sôfrego resvalo...

Despertaram-na com um sôfrego resvalo
- sob sonho de lençóis de negro estrelados –
Ao se despejarem cálidas pelo talo
Iluminuras de crisântemos raiados.

Vôlto à esquerda o jovem torvo – curto abalo –,
Ela ouviu da sacada os últimos miados
E então se sentiu cair – lá fora o galo –
Com os escuros cachos fluindo-lhe aos lados.

Daquela mesa de café ainda tão posta,
Onde era a sobra dos outros ausente,
Sua mãe bafora – reta e vã – já tão reposta:

"O que assim foi está feito. Seja valente:
Querida, ontem, antes de aportar à costa…"
"Meu avô morreu, mamãe", ela inclemente.

 

Oh, voa pra casa, meu bem

oh, voa pra casa, meu bem:
cada folha do calendário cai
com este peso que somente tu deixas
sobre a colcha fria e amarrotada.

sempre teu mudo relógio sussurra
- oh, voa pra casa, meu bem –
quando, no escuro, minha sombra larga
recolhe os estilhaços de mim mesma.

e como cada raio de alvorada
beija a amante noturna, dizendo:
- oh, voa pra casa, meu bem –
deixo teu fio passar entre meus dedos.

pois, contigo, a eternidade é fato;
o fato, eternidades sem ti:
como duas maresias inadiáveis,
nos temos ancorado no litoral

- oh, voa pra casa, meu bem.

 

A noite

O silêncio cobrindo o asfalto,
soluçando quebra-molas, esquinas,
se unindo ao volante, para-brisa.

Gelando seus dedos o retrovisor:
você mexia o olhar para fora
com o mesmo e duro estalado grave
que a coisa grudava em minha vista
o cinza enegrecido de trás.

- Ainda bons amigos - claro! - né?
O silêncio se sentou bem ao lado.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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