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Márcia Maia
(1951 Recife/Pernambuco)

 

 


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POR DECRETO

tão mais inúteis quanto mais se sucedem
ensolaradas e mudas são as manhãs
de domingo
: eu finjo que não te espero
finges tu não nos saber

e a vida segue.
a olhos vistos se adelgaça perde o viço
empalidece
sem que haja em toda a medicina uma única
maneira - poção ventosa ou vacina -
que a possa socorrer

exceto talvez abolir - por decreto - de uma
vez por todas todas elas
: as mudas e claras e azuis e inúteis
manhãs de domingo.

 

INTIMIDADE

se tocar um blues
e eu estiver de azul
como a tarde
me beija o pescoço
me explora o decote
( aos amigos se permitem
certas intimidades ).

mas,se tocar um tango
dança comigo
me beija na boca
quem sabe me ama
( que não é de ferro
a amizade ).

depois
tomar café com leite
e pão torrado

e seguir sendo amigos
por infinitas outras tardes.

 

TODO O AZUL

para Carlos Pena Filho

de tanto azul é feita
esta cidade
céu azul
mar azul
e um rio
a ousar azuis proibidos
em manguezais profanados.

homens de negros cabelos
azuis
e mulheres de peitos
despudoradamente
azuis
tecem nos bares da cidade
a trama dos sonhos
reinventada a cada
madrugada
igualmente azul
enquanto mendigos e cães
se confundem
no azul melancólico das
calçadas.

ah, carlos
recife continua azul
embora velho, doente
distante e saudoso do teu tempo
mas sempre
irremediavelmente
azul!

 

INSÔNIA

na noite úmida de desejo
teço-te em mim
pelas pontas dos meus dedos

 

ÍNTIMO

sentes?

esse arrepio que disfarço
essa chuva que dentre as pernas
se me brota
umedecendo-me secretamente
o descompassado bater do meu
coração urdindo
jam sessions de desejo
dentro em mim
enquanto olhar sereno riso
nos lábios
todas as tuas histórias escuto
sem que te apresse
sem que me apresse

sentes?

 

FOTOGRAFIA

à beira da estrada
um cemitério

cruzes enfeitadas com
coroas de primeira-comunhão

inocência estendida entre
as lápides

num misto de saudade e
decomposição.

 

BAGAGEM

nada.

só um verso
um raio de sol

e a estrada.

 

INEVITÁVEL

tua ausência
sinto-a na pele
quando cheira a sabonete
e lavanda
e carece de tuas mãos a percorrê-la.

 

MARÍTIMA

era àquela hora em que o mar por estar
o céu já quase rosa tem um tom entre
o verde-prata e o violeta.

havia sargaços - tantos - um manto verde
escuro sobre a areia e a maré vazante
descobria os primeiros arrecifes.

uma lua - crescente - brotava do horizonte
quando tuas mãos sorriam em minha pele
desvendando caminhos de antigamente,

e debruçava-se azul sobre a janela, quando
acordei - pele salgada de amor e maresia,
e o eco da tua voz em minha boca.

 

MONOTONIA

ah uma tarde de gavetas reviradas
camas desfeitas roupas amassadas
sentimentos rotos espalhados pelo chão.

não uma tarde qualquer azul
e tola como essa
canções antigas na vitrola alguma brisa
a casa imaculadamente organizada e limpa
e esse travo de bolor e tédio
atravessado à garganta e ao coração.

(se ao menos sobreviesse um temporal...)

 

MUDANÇA DE HÁBITO

desistiu.

cortou os cabelos, encurtou
as saias, trocou a cor do
batom e o número do telefone
celular.

esqueceu promessas e juras
- mentiras antigas -
bem como a cor dos seus olhos e
o tom grave da sua voz

: a dele.

tratou de, em paz, viver a vida
:a sua.

as cartas, entretanto, guardou
para o caso de arrependimento
futuro ou se viesse a pesar a solidão.

 

TRIVIAL

um lírio
alaranjado na tarde
aprisiona o poente sobre a mesa.

 

PARECER

sabiam a despenhadeiros
os olhos da mulher deitada na areia
a pântanos a mar

sabia a absolvição a saída
o esboço de sorriso nos lábios da mulher
morta na areia

afogada - pouco antes - à hora do jantar.

 

TUDO MUITO SIMPLES

o café recém-coado
o cheiro de pão quente
com manteiga
mais um gol de ronaldo na tv
e de quebra o céu claro ainda azul.

seria uma tarde perfeita
não houvesse o morto na casa
ao lado
e o choro das crianças abafando
o cantar dos passarinhos.

 

URBANO EM DEMASIA

um dia inteiro de britadeiras à porta
inferno aos ouvidos.

reformam o sobrado da esquina
e por toda a vizinhança
soçobram versos
canções
risos e mesmo
o que a alguns resta de juízo

: quem os haverá de resgatar
findada a obra?

 

VENDAVAL

quando por conta do vento,
o jarro voou, com a flor
do sétimo andar até espatifar-se
lá embaixo, na calçada, pensei:
morreu de novo o nosso amor.

só depois me dei conta da tolice
e tratei de arranjar um novo
para lhe por no lugar.

Um jarro bem entendido
que o amor mesmo duplamente morto,
apraz-me ainda velar um pouco

:e se teima em ressuscitar?

 

TRAVESSURA

a lua
na poça da rua
finge-se estrela do mar.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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