Aos que cuidam de bandeiras
Há aqueles que levantam uma bandeira
e prosseguem.
Aqueles que afrouxam as mãos
e abandonam as bandeiras no caminho.
Aqueles que rasgam queimam
renegam bandeiras e se recolhem.
Aqueles que se bandeiam
e passam a defender
bandeiras contrárias.
Aqueles que refletem
e escolhem bandeiras melhores.
Aqueles que encerram as bandeiras
em gavetas vitrines e altares.
Aqueles que colocam as bandeiras à venda.
É triste ver bandeiras abandonadas
vendidas ou sacralizadas no céu distante.
As bandeiras não são entidades
para comércio adoração e arquivo
Expostas ao vento e ao tempo
as bandeiras são coisas simples da vida
exigem cuidado:
como uma casa
uma roupa
um filho
uma flor.
POESIA PRA QUE TE QUERO
a Janice Japiassu
Para eles a poesia
é uma donzela
que não pisa no chão
e passeia de armadura
numa bolha de nuvem.
A poesia
não tem leite nos peitos
nem cheiro no sexo
e não constitui
nova versão
da Virgem Santíssima
que pariu sem pecado
mas sujou-se com o parto
e as radicalizações de mãe eleita. (*)
A poesia é uma irmã
biônica do Filho
sem espinhos nem cruz
sem suor nem sangue
sem pão nem peixe
sem festa e vinho
sem óleos nem carinhos
de Madaleno.
A poesia mora num bunker
aromatizado com spray
composto de peças e paisagens
em realidade virtual.
A poesia foi vacinada contra
e não se agenda para
tesões tensões contradições
confrontos e conflitos.
A poesia faz companhia limitada
a ela própria e seus eleitos
comunicando-se à distância
em circuito fechado.
A poesia se inscreve
por controle remoto
e sensibilidade remotíssima.
A poesia
é a dissecada coisa em si
e para si
com antena para nós
programada em pára-raios
(*) "Ele realiza
proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração,
derruba do trono os poderosos; eleva os humildes; aos famintos enche
de bens; e despede os ricos de mãos vazias" (O cântico
de Maria - Lucas, 26-38)
A MEDIDA DA POESIA
a Jaci Bezerra
Não quero a poesia
das coisas repletas.
Não quero a estrela
que some no ar.
Não gosto
da camisa apertada
saindo da calça
e amarrando acenos.
Não curto
a camisa de espantalho
derramando-se no corpo
e sugerindo outro dono.
Quero uma camisa
passando um pouco
dos ombros
que me deixe vestido e livre
para me espreguiçar
e me exaltar
para dar abraços
e braçadas na vida.
Procuro uma poesia
na medida da minha camisa.
A PROPÓSITO DE DETERMINADA
POESIA
Alguma coisa de metal e gelo
retira do caminho toda surpresa.
Alguma falta de impulso e sopro
transforma o vestido em armadura.
Alguma pasta de cimento e cinza
encerra o arco-íris num capuz.
Alguma enrijecida engenharia
amarra o abraço em dobradiças.
Alguma coisa de boneca inflável
frustrando o sabor da carne viva.
VERBO FLOR
a Heloísa Arcoverde
Se eu flor
Se tu flores
Se ele flor
Se nós flormos
Se vós flordes
Se eles florem
E se não flores assim
para mim
plantarei um cacto
no meu jardim.
A SANTA POESIA DA MULHER
AMADA
A mulher amada
é uma fadinha boa.
A mulher amada
é uma pombinha.
A mulher amada
é o próprio céu
bordado de anjinhos
e anjinhas
e purezinhas
e belezinhas.
A mulher amada
não tem nada feio.
A mulher amada
não faz nada feio.
E o peito
da mulher amada
é seio.
A mulher amada
minha namorada
não peida
não caga
e não dá mijada.
A mulher amada
quando mija
é só refresquinho
de graviola.
Ó mulher amada
flor da minha vida:
tu és uma santa
cagada e cuspida!
CARINHO & CARÍCIA
a Kalinne
Carinho penumbra o corpo.
Carícia acende a pele.
Carinho é açúcar
leite quente.
Carícia é sal
pimenta ardente.
Carinho de contemplar
é encosto e toque.
Carinho de consolar
é mudo e úmido.
Carinho de alegria
às vezes chora.
Carinho para quem dorme
baila nos dedos.
Carinho de acalmar
abraça e apalpa.
Carinho de ninar
balança e canta.
Carinho de animar
sacode e sopra.
Carinho à distância
veste poesia.
Carícia de atrair
nada nos olhos.
Carícia de começo
ferve nas mãos.
Carícia de desejo
retira pétalas.
Carícia de mergulho
bebe na flor.
Carícia de paixão
arranca nuvens.
Carícia de saudade
solta vulcões.
Carícia de amor
acende estrelas.
Carícia de final
soterra pranto. |