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Manoel Constantino
(1963 Alagoas)

 

 


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ANDARILHO

Atravessador de séculos
rompo a dor no meio das trovoadas.

Reinventada a chave
na pedra polida
recomponho o encontro

O sol se põe.
A aurora monta os seus cavalos.

E eu,
Senhor da solidão,
tento recompor a cidade em mim.

 

O SOL POSTO

O poeta sabe o fim-de-tarde.

É fim-de-tarde.

Há que se pousar
nas entranhas da morte.

 

NADA

Nada.
O ar rarefeito do silêncio.
A cidade é quase uma pérola
                             sufocada.
Não há pescadores.
                             Há a profundidade
                             de uma dor estranha
                             estendida
                             esticada.
Na extremidade do nada
                  a poesia
                              oscila
                  pêndulo
                  à procura de outra
                  fonte.
O amor
O homem
E uma cidade calada.

O mar me cabe
na ruptura de suas ondas
em minhas pedras.

 

RUAS

Uma senhora cheia
de tapetes ao seu redor
alça vôo no automóvel
último modelo.

Estancar a palavra
os olhos nunca.

 

JOGOS

As palavras estão atropeladas.
Uivo para dentro a avidez
que trago nos jogos amorosos.
         A monitoria do museu
         vive uma tarde de estudantes.
         Uma borboleta pousa em sua mão.
A plasticidade do silêncio
está
       dentro
                 do mar
nos ruídos internos
do meu coração.
         Nada mais será ontem.
         Uma faísca tem o poder dos atalhos
         e o teu olhar penetra
         nos desavisados
         deixo latejar tua risada
         por todas as paredes do quarto.
         Adormecer é quase estranho.

 

A PRAÇA

A praça limpa
irresponsavelmente vazia
põe à mesa rumores
e desejos de seus visitantes
                         habituais.
                         Sem anestesia.
Nesses domingos
                         assépticos
até seus pássaros
                         revelam-se.

 

 

Fonte:
Marginal Recife
Coletânea Poética II
Recife 2003
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura Cidade do Recife
Organizadores: Cida Pedrosa, Miró e Valmir Jordão

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos