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Malungo
(1969 Recife/Pernambuco)

 

 


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OBRA VERSIFICADA
NÃO IDENTIFICADA
Ao som de um hino evangélico,
Surge um boi mameluco; boi de fita.
Um boi maluco, psicodélico; que rumina
Saudades e defeca solidão.
Xabu nos computadores e o mofo deu nos cd's.
Deu o zererê, cachorro em 90:
                                         bundalelê
...E o artista continuou discriminado e
                                     jogando a boléu.
Fidalgos mendigos jantando pão com pão
                                      no cinco pontas.
...E lá se vai a tua cabeça a boiar nas
                                      águas do Capibaribe.
Ela está bêbeda por ter enchido a cara de
                           vinhoto no bar Savoy.
Ela está inchada pela derrota do time do
                                              coração...
Mas pula da água suja pro calçamento
escaldante e sai dançando ao som de um
                                                 maracatu
afrociberdélico pela rua da Imperatriz.
Todos os termômetros da cidade
                                     enlouqueceram!
Eles marcam zero grão de terra na cara
                                                 dos sem.
E vem você de novo, fazendo bamburim de
                                                xoxota.
Pena que você não nota que o prêmio é
                         dividido por mais de cem:
Uma tuia de machos esperando numa fila
                                            sem fim.
Derrubei a grande estante por cima dos
                                           bacharéis!
Eles são senhores, caros senhores;
Valendo pouco mais de dois mil réis.
Um verso perverso, louco;
Como o gato de Alice e o seu sorriso
                                                  sacana.
Catedráticos de fama se estarrecem.
E os mendigos do Brasil
Com suas roupas de amianto agradecem.
a-gra-de-cem!!!

 

CARROCEIRO TRANSCENDENTAL

Lá em Peixinhos, a arte mora na favela.
As bandas, o lixo do Beberibe:
É o groove suburbano!
Goiamuns plugados se esbarram nas vielas.
Todas as orelhas do mundo viradas para
Recife.
Só aqui, não se ouve o novo som
Pernambucano.

A luz do sol se reflete nas águas sujas do rio
(nos zincos dos barracões).
Urubus dão rasantes nas montanhas de lixo.
Nas carroças ferro velho, tralhas e
papelões,
Carne de rato; pés sujos nos telhados da
consciência.
Mocambos, almas encardidas
e balas perdidas sem clemência.

Geladeiras incandescentes iluminam a tua
cozinha.
Paredes transparentes revelam as terceiras
intenções.
Coloque o plugue e peça linha.
Viaje chutado, num burro sem rabo
rumo a outras dimensões.

 

MEUS OLHOS EM MANHATTAN
(flashes de terror)

Na luz da manhã, as aves turbinadas:
Fanático mergulho surreal.
Kamikazes e passageiros voando para o fim.
O alvo se aproxima rapidamente;
Explode tudo em nome de Alá.

As cabeças dos irmãos em chamas;
A fumaça irrita os olhos de São Pedro.
Gritam Help (S.O.S em desespero).
A Águia se debate entre os dentes do Leão.

Tudo ruindo; como um sonho mau diante
de todos.
A pedrada e o Golias; inesperada queda.
Fogo; e as torres desmoronam
Inacreditavelmente
Pelos olhos da TV.
O Grande Satã, o pó e as cinzas
passeando pelo ar.
Babel se cala numa nuvem surda de
fumaça e sangue.

Sementes e plantações:
Colheita de frutos amargos bumerangues.
Ganância, maldade e prepotência.
Em todo mundo desfila uma fome digital.
Bombardeios matando pessoas inocentes.

 

COMPUTADORES A LENHA, CHIPS A VAPOR

Mãos analfabetas folheiam cordéis digitais.
Paralíticos binários dançam
cirandas ancestrais.
Os alto-falantes vomitam
os sons dos sintéticos baiões.
Um bando alienando o povo
com seus forrós charlatões.

Neurônios, fios e tomadas.
Circuitos e impulsos nos pés
Dançando em maracatu elétrico.
Das mãos saem faíscas;
Palmas pro coco de roda!
Um pensamento plugado na eletrosfera
E um cérebro iluminando quarteirões.

 

 

Fonte:
Marginal Recife
Coletânea Poética I
Recife 2002
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura Cidade do Recife
Organizadores: Cida Pedrosa, Miró e Valmir Jordão

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos