| O SILÊNCIO
NO AQUÁRIO
em meu silêncio, meu exílio canto
e nele morro e quase sempre habito
se no meu sonho, meu silêncio encanto
é porque nele minha morte evito
guardo a memória desses deuses surdos
transformo em cinzas a feição do mito
e na distância de caminhos tardos
durmo ao relento sobre a terra fria
e nas pupilas desses gatos pardos
vivo mil noites pra sonhar um dia
O HOMEM PELO HOMEM
naquela noite eu não podia, pense
deixar meu gesto preso no sapato
fingir que flores surgem do cimento
depois voltar imune pro meu quarto
pensar talvez, um tanto inconseqüente
que no futuro só serei retrato
naquela noite eu não podia apenas
deixar que um susto fosse meu receio
tinha que ter em meu semblante, pense
meio sorriso laminado ao meio
ALPENDRES E CURRAIS
Para Casimiro Fidelis Maia,
Meu pai, in memoriam
A poeira do chão: nuvem tardia
que se fez barbatã em pastos idos
de janeiros, em tardes, já floridos
ou de marços murchando á flor do dia
um abril que virá se prenuncia
numa chuva futura que restou
no mormaço de um tempo que passou
quando as nuvens tardias desfiaram
outras águas em marços inundaram
o Sertão que se foi com meu avô
um sertão que tem cheiro de sol quente
costurado à roseta feito esporas,
ruminando a chapada nas auroras
traquejando o novilho dissidente...
foi meu pai, nesses campos, contundente
no sopapo da mão, num só suspiro
fez estrelas girar e nesse giro
casco brabo louvar Aldebarã,
tempo assim não terá outro amanhã,
o Sertão que se foi com Casimiro
vez por outra me vêm esses momentos
que marcaram com luas minha face
e se mesmo nas luas não buscasse
as lembranças viriam com os ventos
quando abóiam no sul dos sentimentos
porque tudo passou, mas não tem fim,
no galope sutil do Mandarim
galgo sóis arreados ao sonhar
uma noite cardã a campear
o Sertão que ficou dentro de mim |