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Madalena Castro
(1946 Bom Jardim/Pernambuco)

 

 


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NA FILA DO BANCO

Certa vez eu fui ao banco
Tinha uma fila danada
Por incrível que pareça
Eu não me senti cansada
Pois muita gente era alegre
E contava coisa engraçada

Bem ali rtã minha frente
Uma moçá'no chão sentou
A outra que estava ao lado
Também lhe acompanhou
E um história comprida
Nesta hora começou

"Menina eu vou te contar
O que me aconteceu
Arrumei um home bom'
Depois que José morreu
Mas quatro meses depois
O cara se escafedeu

Já me dissero que viro
Ele cum outra mulé
Com um shortinho de coto
E uma havaiana no pé
Tão feia de fazer dó
Parece que é da ralé

Vou me informar direitinho
Onde eles foram morar
Puxo ela pelos cabelos
Vou dá-lhe um pau de lascar
Depois agarro meu home
Nem dexo ele se explicar"

Mas adiante um rapaz
Contava a sua aventura
Dizendo: Amigo estou bem
Estou com uma criatura
Que jurou me sustentar
Pois é rica e tem cultura"

O outro então respondeu:
Amigo tenha cuidado!
Pois vida de gigolô
Nunca tem bom resultado
Quando ela encontra um mais jovem
Você é logo trocado

Mas quando isso acontecer
Já terei aproveitado
O que ela me oferecer
Aceitarei de bom grado
Mas meu gordo pé de meia
Já estará bem guardado"

E haja papo daqui
E haja papo de lá
E a fila quilométrica
Nada de se acabar
Quando de repente ouvi
Outra história começar

"Depois que fiquei viúva
Meu filho veio pra cá
Desempregado e com filho
Bebendo pra se daná
O pió foi que descobri
Que ele deu pra roubar

"E cadê a Mulher dele ?"
A amiga perguntou.
Disseram que a maldita
Muita gaia lhe botou
Com um velho caminhoneiro
Que pra longe a levou"

Lá à fila dos idosos
Uma senhora chegou
Pediu pra ficar na frente
Porém ninguém concordou
Ela disse: estou bem doente
Pensem nisso por favor...

Houve um grande falatório
Um cidadão se alterou
Dizendo; "eu também sou velho
E doente também estou
Se você ficar na frente
Eu juro que também vou"

A senhora bem tranqüila
Muito educada falou
"não precisa confusão
Fiquem calmos, por favor
Que eu já estou indo pra fila
Não está aqui quem falou"

Pra encurtar a história
Pra confusão aumentar
O gerente muito calmo
Se propôs a anunciar
Que neste exato momento
O sistema saiu do ar

Aí todos se agitaram
Muitos sentaram no chão
Um homem falou pra mim
Com uma cansada feição
É isso que acontece
Com o pobre nesta nação.

Um boy falou: isso é nada
Já estou acostumado
Quando eu sair deste banco
Noutro o lugar tá guardado
E quando eu sair de lá
O dia tem terminado

Com o Salário que ganho
Não devo me apressar
Quem corre cansa, amigo
E eu não quero me cansar
E aqui é tão divertido
Nem vejo o tempo passar"

Depois de 15 minutos
O sistema então voltou
Novamente a longa fila
Aos poucos se arrumou
Depois de quase duas horas
Foi que minha vez chegou

Assim que fui atendida
Eu saí dali pensando
No jeito que aquela gente
Suas histórias iam contando
Sem tomar nenhum cuidado
Com quem estava escutando

Não foram somente essas
As histórias que escutei
Daquela gente humilde
Nas horas que ali passei
Apenas só foram, essas
As que mais me interessei

Se observar os que contam
As histórias engraçadas
Você vê que são pessoas
Alegres, bem humoradas
Capazes até de fazerem
Sisudos darem risadas

Imaginem como seria
O tédio de se ficar
Esperando numa fila
Sem ter onde se sentar
Sem ouvir um comentário
Ou uma história popular.

 

 

Fonte:
Cordel: NA FILA DO BANCO
Recife 2003

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos