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Luis Carlos Monteiro
(1957 Sertânia/Pernambuco)

 

 


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GRAFITO EM RECIFE

Não te provoco - Sei que és violenta
e podes dispor de meu corpo
sem que eu o saiba ou espere.

Não te evoco,
e também
o louvar não te quero -
em meio a falácias e lutas
a viver o delírio dos loucos
e a sonhar num adolescer de destroços
não te rejeito ou refuto, não te renego ou expulso
de mim
ó cidade vadia, cidade maligna, obscura cidade!

Cidade ativa
desenfreada, divina
por onde amo e circulo.

 

RECIFE - PÁTIO DE SÃO PEDRO

Vagabundos na praça.
Pessoas
entoando versículos e loas,
artifícios e ogivas antigos

mercenários mecenas milícias.

Esta cidade com seus teatros,
bares e praias, cinemas amontoados

Luzes incertas e avaras,
parco e raro um povo insofrido,
decadência obscura de pontes e rios,
caminhadas na noite, reencontros e festas

Docas da Avenida Rio Branco,
Compadre Teófilo, amigo e poeta!

Esta cidade com seus poetas
avessos direitos cisneiros.
Pátios afins com requintes de urbe
pós-moderno trans(n)adas futuro.
Mulheres de beleza fatal e morena.
Brinquedos esquivos perdidos espúrios.

 

O CEGO DA CAXANGÁ

Veste o melhor trapo o cego
para pedir a esmola diária

Descendo ônibus
subindo ônibus
descendo este ônibus
e a tomar novo ônibus

Não padece esse cego
vergonhas recatos pudores
nem qualquer outro tipo
de sentimento burguês
que de algum modo o impeça
de ganhar o seu troco
obter seu pecúlio
batalhar o seu soldo.

2.

Não esquece esse cego
o não visto,
o impressentido
e o ir-
realizado,
porém
não desvenda,
não vê
e não sente essa vida
este cego?

3.

Alguém vê, quem desvenda, qual enfim
poderá refletir essa vida
com suas órbitas vazadas de cego?

 

O CANAVIAL FLUTUANTE
OU VISADA DO RIO FORMOSO

São as linhas-recorte
daquele vale adiante
linhas curvadas e finas,
colunas de folha e arame,
paisagens de lata e caniço.

É o jardim da infância
de camponeses meninos;
são os seculares motivos
de resistência e opressão.

São os lugares infindos
lá onde a vista se perde
indistinta, no verde;
é o espaço ermo, rasteiro
por onde o chão se sumiu.

 

PARA SENTIR O TEU CORPO

É tão ínfima a distância
quanto viva a lembrança -

E é tão vivo e tão próximo teu corpo
que não se perde a esperança

 

POEMA DA QUEDA PARCIAL

Ela feriu-se de encontro
ao rochedo, mas não
sucumbiu; assim,
dissolvidas no rímel
as lágrimas ponteiam seu rosto
e ao batom se confundem.

Agora consuma seu choro
que não nos entristece ou afeta,
pois foi estranheza e procura
e do escândalo à queda
provocação, ruptura
de quem com maldade recusa
a quem torturado a deseja.

Com sua fúria mais terna,
sempre tão viva e tão meiga,
sempre divina e faceira
ela absorve esse néctar
de fruição e incerteza
entre artifícios e gestos,
entre alegria e espera
sem a ninguém atender.

Ela desintegra o rochedo
a espantar tédio e medo.
A rebeldia é sua arma
quando destrói casca e calma.
E um novo tombo eqüivale
à dispersão de sua alma.

 

CONTRAFLUXO

Não te move o demônio
duendes, mefistos ou bruxas
nem o herói a estrela o bandido
o belzebu mais maligno
ou o serafim tão antigo
que desintegram o jogo da vida
já confundidos em face de tudo;
o que te move e desvela de sempre
é o calor da paixão sem limites, abrupta
e a fruição do amor no teu íntimo, sem culpas.

 

PASSAGEM

1.

Detenho-me no mundo
o surto de um tempo
e o tempo de um eco
e na duração desse susto
um tempo suficiente
para aqui me sentir
o que vejo o que vivo

2.

Detenho-me no mundo
o surto de um tempo
e o tempo de um eco
e a duração desse susto
num tempo suficiente
para aqui me sentir
o que vejo o que vivo

 

OS NÁUFRAGOS E AFLITOS PROVÁVEIS

Não corra: ande no compasso
e não tente um só passo
maior que as pernas
pois irá constatar
um abismo existente
entre o concreto e o espaço
e poderá se esborrachar;
mantenha sua linha
mas não abra sua guarda,
não mostre o seu jogo
e nem abandone seu posto -
Seja digno, não se deixe dobrar
e não dê o seu braço
a torcer, triturar:
O navio ainda vai afundar

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

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