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Luiz Carlos Duarte
(1947 Recife/Pernambuco)

 

 


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NOTÍCIA

Diante da minha mesa,
ao lado da realidade,
pastam as minhas mãos
dois dias de solidão.

Os pensamentos voam
como as canções
da radiola-de-fichas
no bar da esquina

Há novidades nos jornais
(um bêbado as lê):
trezentos policiais,
com suas bombas de gás,
acabaram um comício
nas Minas Gerais.
(Uma lágrima do poeta Drummond
é impressa em off-set).

 

POEMOCULTURA

Há poemas propostos
para os olhos, simplesmente.
Olhos que se revestem
de lentes, lentes, mais lentes.

Outros - mais elaborados -
para os dedos concebidos.
Alguns há só construção
em palavras levantada:
prisão, somente prisão,
prisão das coisas mais claras.

Há poemas renascidos
na flor da pele e no ouvido:
eles são o dia-a-dia
nas palavras escondido.

 

POEMA CONSTITUCIONAL

Pode tecer-se um Estado
nesta folha de papel.
Constituí-lo com a força
Que existe num fonema.
Pode tecer-se um Estado
De linossignos: um poema.

Uma ilha de palavras,
vasta de verdes plenos,
cavalos pastando o nada
e imensos montes de feno.

E os homens todos sentados,
numa geral palidez,
produzindo alimentos
em partidas de xadrez.

Mas será mesmo que neste
poema-Estado criado
Os dias vão e virão ?

E o poeta morante,
no seu Estado-inventado,
comerá os alimentos
em xeque-mates plantados ?

 

 

Fonte:
O INVENTÁRIO DAS HORAS
Luiz Carlos Duarte
Coleção Recife - 1981

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