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Lúcio Ferreira
(1930 Recife/Pernambuco)

 

 


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INSIGNIFICÂNCIAS ABSURDAS

E nada significamos:
nem eu, nem tu,
ninguém.
A tibieza,
um morno cárcere
de amianto.
Um mormaço de agonia
que macheia
sem jardim.

O que mais
assim farias,
senão beijar
o pedestal?
Deste mesmo desespero,
a madona padecia,
teu beijo lhe ferindo
no bronze do olhar
um silêncio mal calado.

E nada refletia
o tremor
dos castiçais,
que não fosse a outra pátina.
No chão,
os votos inúteis,
e as vãs promessas
nos baldes da boca
tão mal prometidas.

E nada significamos:
nem tu,nem eu,
ninguém.

 

AS VALAS COMUNS DE KOSOVO

Agora,
tragam o álbum funerário.

Na última vez,
ele ria
e beijou-te os cabelos.
Tinha um ar
de quem nunca voltaria.
E os beijos ferviam
ao se despedir.

O riso abundante,
farto, perdulário.
O jeans cor do céu,
a branca camisa,
garças rentes ao mar.
Os sapatos pretos,
negros tal aquele sábado.

Tudo lhe entregaste
sem desconfiar
do sol,
que abria
as janelas
ao teu corpo tocado
no tempo dos ontens.

Agora,
tragam o álbum funerário,

para teu susto,
porque teus olhos
hão de saber
que esses despojos
das valas de Kosovo
são as peças
que tu beijaste
na despedida.

Não acenda velas.
Nada, nada seria iluminado
senão teu desespero,
teu pranto de marfim

 

Manhã promissora

A manhã franjou
de açafrão
as escoras do céu
Dosa a chuva
da madrugada
o tamanho das frutas
e a estévia das polpas

Em meu peito
há um carinho lavado
que sopro
para os caminhos
e de volta
o vento traz
revigorado

Sinto a alma
Grelar oásis
e penso tâmaras

E amanheço.

 

Meus apelos

E se fores
chamarei quem?
A ninguém interessaria meu clamor
E entre as palavras
nada a ouvir restaria

Existe um novo grito
temor recente em meus apelos
Sou tal o ópio
que vicia encanta
constrói a morte
com um vagar de sombra

É adorável te chamar
e saber que vens
e trazes a ti e a solução
E se em mim
nunca mais houver um grito?

E se perderes a voz e o canário
ainda que subsista a canção?
Por isso te chamarei
até que se perca a primavera
entre os seixos
de meus olhos.

 

Conseqüências

Por fazer minha parte
fui lembrado
guardou a pedra
meu nome
mudou o pássaro
de canto
saiu a lua
mais vezes
num céu azul estrelado

Por fazer minha parte
fiz sentido
as águas que dei
saciaram
e o pão das sobras pensado
palavras de pedra
tão simples
num coração repartido

Por fazer minha parte
fui lembrado.

 

O que era antes do tempo

Nada era antes da dor
assim a cria
antes do parto
este mistério
antes da morte

Nada era antes da luz
assim o símbolo
antes da coisa
este sentido
antes do gosto

as dores que eram
antes da parte
com a partilha desvaneceram
assim a vez
com a presença

Assim o ódio
e a justiça

Nada era antes da dor
assim a vida
assim o amor.

 

 

Fontes:
Livro 46 Poetas, Sempre
Organização: Almir Castro Barros
Edições Bagaço
Recife - 2002

Um pouco antes da chuva
Lúcio Ferreira
Ed. Novo Horizonte
Recife-2006

As duas extremidades da luz
Poesia
Lúcio Ferreira
CEPE/UBE – Recife-2001

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos