ÔNIX
Cinzelarei, profundo, um lúgubre lamento,
Lapidando uma jóia obscura de delírios;
Com o rigor febril dum eólico instrumento
Engastarei esse ônix negro em meu martírio.
A Nau dos Loucos adernando a barlavento,
Zarparei ostentando a Jóia: ardente lírio.
Trôpego capitão – já ébrio de tormentos
–,
Farei que acendam na alta gávea intenso círio
Cujo lume, esculpindo a luz na noite cruel,
Deixe-me a terra vislumbrar; e o corpo, após
Sobre maldita praia prostrar o fardo infiel,
Cante co’ a inteira força de sua rouca
voz
A gema burilada em dor, em raiva, em fel:
Minha pepita vã que atiro ao surdo Algoz.
SONETO PRÉ-SUICIDA
De meu grito se molda um outro grito
E acumulo as migalhas do fracasso.
Sou sacerdote dum antigo rito
Colhido de surpresa em vão cansaço.
Cada vez é mais longe o que persigo,
Em solidão desdobro o meu abraço;
Como um louco repito o que desdigo
E em contradança ensaio um novo passo.
Minha dor é uma esfera sem teoria;
Orbita em torno o medo ao meu desejo;
Calculando uma falsa geometria,
Paralelas do escárnio dão ensejo
À angústia ilimitada do meu dia.
E a sombra do vazio me oferta um beijo.
LÁPIDE
Tudo que o olhar nunca desvela
No escuro o silêncio desfaz:
Raro diamante não encerra
A luz duma estrela fugaz.
Sei ao incerto o negro prumo
Da frígida pedra que avulta
Ao querer do vento sem rumo
E o ermo da lápide perscruta:
Fulgor que a rocha sintetiza
– Ao sol calcinada e tão dura;
Sem fendas ou gume, indivisa –
A germinar em flor obscura.
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