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Lirinha
(Arcoverde/Pernambuco)

 

 


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POEIRA
(ou tambores do vento que vem)

O pão que nasce do fogo
Na roda da saia
Na gira da terra
O vento que rasga telhado
Tambor ritmado
Trompetes de guerra
A guerra que traz a poeira
Que bate na gente
Poeira que vem do sertão
Configuração
Bafo quente

Vem poeira
Vem poeira
Vem poeira

Trago poeira da terra queimada e a fumaça
Ah! Sequidão* sequidão pojuca
Malhada Craíba
Juazeiro torto
Moxotó velado
Serra das Varas
Trago poeira da terra queimada e a fumaça
Ah! Sequidão* sequidão pojuca
Malhada Craíba
Juazeiro torto
Moxotó velado
Cabrobó Floresta de Belém do São Francisco
Terra das Massas

*Sequidão, inspirada no trupe de Ciço Gomes.

 

PROFECIA
(ou testamento da ira)

Salve o povo Xucuru

Na cumeeira da serra Ororubá o velho profeta já dizia
Uma nova era se abre com duas vibras trançadas
Seca e sangue
Seca e sangue*

Herdeiros do novo milênio
Ninguém tem mais dúvidas
O sertão vai virar mar
E o mar sim
Depois de encharcar as mais estreitas veredas
Virará sertão

Antôe tinha razão rebanho da fé

A terra de todos a terra é de ninguém
Pisarão na terra dele todos os seus
E os documentos dos homens incrédulos
Não resistirão a sua ira

Filhos do caldeirão
Herdeiros do fim do mundo
Queimai vossa história tão mal contada

Ah! Joana imaginária
Permita que o Conselheiro
Encoste sua cabeleira
No teu colo de oratórios
Tua saia de rosários
Teu beijo de cera quente

E assim na derradeira lua branca
Quando todos os rios virarem leite
E as barrancas cuscuz de milho
E as estrelas tocadeiras de viola
Caírem uma por uma
Os soldados do rei D. Sebastião
Mostrarão o caminho

*Profecia do Pajé Cauã (extraído do livro Lampião Seu Tempo e Seu Reinado,vol1, Frederico Bezerra Maciel).

 

FOGUETE DE REIS

No derradeiro luar
O sol saiu
Um trovão avermelhado
O sol saiu
Solta fogo do passado
O sol saiu
No peito de quem tá vivo
Salve
Eu quero ver rodar
A planta que vingará
O sol saiu
O medo de lampião
O sol saiu
As dores de Iemanjá

O sol saiu

E a lua quilariou
E eu vi o meu amor
Dentro do carnavá

E haja guerra e haja guerra
Haja guerra no ar

Boa noite senhor e senhora
Eu cheguei agora
Me preste atenção
Nesse mundo de fogo e de guerra
O santo da terra
Tem calo na mão

 

CHAMADA DOS SANTOS AFRICANOS

Quando a flor tava dormindo
Vento fogo corredor
É a bença prometida
Pra quem é merecedor
Pai Tomás levanta a cuia
Com incenso de fulô

Preta velha atiça o fogo
Que o trabalho começou

Vem arriar nessa casa

 

VOU SAQUEAR A TUA FEIRA

Vou saquear a tua feira
Rasgar a capa do teu peito
Cercar de arame a tua boca
Botar garrancho no teu pé
Ah Sertão
Sesmaria sem dono
Bandeira vereda calor
Mar
A terra quente mergulhou nas águas
Salvação
Ave- bala sem dono
Bandeira vereda calor
Queima
As cercas velhas de arame novo

 

 

Fonte:
Invenção Recife: Coletânea Poética I
2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura/ Fundação de Cultura Cidade do Recife
Organizadores:Delmo Montenegro e Pietro Wagner

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos