outdoor
eu olho a boca de beijo
que sorte daquela moça
a que detém tua boca
a que sabe teus segredos
aqueles que só revelas
bem debaixo das cobertas
entre suas coxas
eu olho os olhos negros
que sorte daquela dona
a que te olha nos olhos
e sabe dos teus anseios
aqueles que depositas
nas madrugadas de inverno
entre seus seios
eu olho o teu retrato
que sorte daquela zinha
a que me mata de inveja
pelos apelos do corpo
por tua alma que é dela
não minha
romance
há que haver algum frisson
susto arrepio
pois ficar só por costume
como relógio de ponto
é muito triste
vai amor
melhor assim
procura um olho d'água
uma fagulha um rastilho
algo que te arrebate
devolvo-te à vertigem
pedra-sabão
escrevo no peito o vento que passa
o sol a vidraça a chuva a neblina
escrevo no peito o doce a cachaça
o queijo a coalhada o mapa de minas
escrevo no peito as ruas estradas
as flores o quadro o laço de fita
escrevo no peito a tarde a alvorada
a lua as estrelas a noite bonita
escrevo no peito a terra um jazigo
o chão a florada a serra o jardim
escrevo no peito opalas sem fim
a mãe meus irmãos as filhas o amigo
seu cheiro costumes a bruma a brisa
depois eu me abraço e fecho a camisa
(af)lição
curva após curva
o corpo se recompõe
não por coragem
por necessidade
atenção redobrada
a vida é mão única
perder o seu curso
é loucura
sabotagem
inocente
o prego sem ponta fincado no muro
segura a gaiola do pobre canário
que canta coitado assim solitário
as asas que nunca feriram o azul |