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Líria Porto
(1945 Araguari/Minas Gerais)

 

 


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outdoor

eu olho a boca de beijo
que sorte daquela moça
a que detém tua boca
a que sabe teus segredos
aqueles que só revelas
bem debaixo das cobertas
entre suas coxas

eu olho os olhos negros
que sorte daquela dona
a que te olha nos olhos
e sabe dos teus anseios
aqueles que depositas
nas madrugadas de inverno
entre seus seios

eu olho o teu retrato
que sorte daquela zinha
a que me mata de inveja
pelos apelos do corpo
por tua alma que é dela
não minha

 

romance

há que haver algum frisson
susto arrepio
pois ficar só por costume
como relógio de ponto
é muito triste

vai amor
melhor assim
procura um olho d'água
uma fagulha um rastilho
algo que te arrebate

devolvo-te à vertigem

 

pedra-sabão

escrevo no peito o vento que passa
o sol a vidraça a chuva a neblina
escrevo no peito o doce a cachaça
o queijo a coalhada o mapa de minas

escrevo no peito as ruas estradas
as flores o quadro o laço de fita
escrevo no peito a tarde a alvorada
a lua as estrelas a noite bonita

escrevo no peito a terra um jazigo
o chão a florada a serra o jardim
escrevo no peito opalas sem fim

a mãe meus irmãos as filhas o amigo
seu cheiro costumes a bruma a brisa
depois eu me abraço e fecho a camisa

 

(af)lição

curva após curva
o corpo se recompõe

não por coragem
por necessidade

atenção redobrada
a vida é mão única

perder o seu curso
é loucura

sabotagem

 

inocente

o prego sem ponta fincado no muro
segura a gaiola do pobre canário

que canta coitado assim solitário
as asas que nunca feriram o azul

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

 

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