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LÊGO & DAVINOVICH
OU O RECIFE A QUATRO MÃOS

por Anna Fortuna*

Usando os seus apelidos de criança, e tal como no brinquedo de montar “Lego”, Elizabeth Hazin e Davino Sena vão aos poucos construindo com palavras um belo poema em que rememoram e traduzem com rara beleza e lirismo imagens de uma infância em comum no Recife.

Infância de casas, avós, barcos, rios, odores, vozes e silêncios, sol e solidão; de lembranças reais ou imaginárias, de experiências e relatos compartilhados ou não, que se dizem, desdizem mas se completam e acabam formando um retrato, um memorial, emocional/afetivo, universal; lúcido, triste, doloroso mas também alegre e até divertido de um Recife, de uma infância que podia ser de cada um de nós, em qualquer lugar.

Meio Drummond, meio Caymmi, Elizabeth e Davino, como dois grandes poetas que são, conseguiram, em “Lêgo & Davinovich”, fazer um retrato perfeito da infância, captar com maestria a inexplicável e inerente nostalgia que todos sentimos ao relembrá-la.

Rio de Janeiro, 2007

 
*ANNA FORTUNA
é comediante, filha do saudoso Fortuna, do Pasquim, e tem um site de humor pós-moderno, onde fala de tudo e nos brinda com um personagem hilariante chamado Mulher-Cartum.

 

 



Vestindo seus apelidos de infância, Elizabeth Hazin e Davino Sena (Lêgo e Davinovich) nos trazem um diálogo poético de tom proustiano, em que as lembranças de uma Recife reconstruída pela memória são como aquela Combray da busca pelo tempo perdido - uma realidade íntima que se constrói como arte. Aqui, no caso, como poema.
 
 

Pontuado pelas ilustrações de Manoel Veiga, de grande força e beleza, o diálogo entre os dois personagens adquire novos contornos a cada leitura, à medida que o olhar transita entre as paisagens do Capibaribe, da Boa-Viagem e da irmã Olinda, ou se fixa na geografia íntima da casa da infância, no tempo que não cabe nos relógios.

Por trás dos cenários de antigas histórias temperadas de sangue holandês, da cidade-menina, do recife-menino, das palavras levadas pelo rio ou apagadas pelo mar, fica aquilo que está além das palavras, além do tempo e da memória - a universalidade da nossa condição humana, aqui sublimada e transfigurada no que há de mais puro entre as artes: poesia.

Editora 7LETRAS
Rio de Janeiro, 2007
 

 

 

LÊGO:

Cais da Aurora, casa de meu avô,
onde o que fui semelhava eterno
chama acesa sobre o rio mais sedento.
De tudo o que ficou, o que ficou?

 

DAVINOVICH:

Ficou a luz, uma luz
que tudo corrompe, luz
de recife, luz marinha
sobre tua cabeça e a minha
de quando ainda o sal, velas
que o branco enfuna... vê-las
era a infância, poder sentir
vento e sal, jangada e rede.

 

LÊGO:

Nosso elemento natural se desencanta:
há mares e mares em que não quebram ondas
onde nunca tem espuma, nem saltam peixes
onde não navegam barcos - antes afundam -
e toda saudade é uma palavra verde
que sabe a sal.
Mas terá, sim, restado alguma infância.
E terá sido ela pátria ou exílio?
ou só aquele tempo roubado ao relógio?

 

DAVINOVICH:

Uma ilha, em sonhos, deve haver
onde alguém, sonhando, fica a ver
o que foi, fomos, mais que exilados
de um sítio tranqüilo no passado
(o vendedor passava defronte
e o mel se oferecia em cones)
ora fixa, tal ilha, ora vaga,
ao sabor da mente, qual jangada.

 

LÊGO:

De todos os livros que tive
me foram as letras levadas
nas águas do Capibaribe
apenas num canto da alma
como se escritas numa página
algumas me restaram firmes
mistério que não se deslinda:
se umas descrevem Olinda
as outras desenham Recife.

 

DAVINOVICH:

O Recife é um menino
a jogar bola, divino,
emoldurado de Sol
de mar iluminado.
O menino cresceu forte
contra o holandês armado
e tanto brincou com a morte
que a morte quis levá-lo.
Luta contra inimigos
sobre os mangues azuis
entre ilhas distraído
porque a morte o seduz.
Um dia olhou para trás
e sentiu calor na nuca
como se sentem olhares
atravessar-nos a alma.
Uma moça de branco
no alto, a observá-lo
tem sorriso de amiga
e cabelos de brisa.
Seria a morte vindo
com vestido de alça
finalmente premiar
sua bola, sua arte?
A moça tem nos gestos
o branco dos sobrados
e deu vontade ao menino
vê-la sob o vestido.
Veria morros com palmeiras
acariciadas pelo vento
e ladeira onde se perder
até encontrar a amada.
Mas nada disso podia
e voltou a jogar bola
sem reconhecer Olinda
no branco de outrora.

 

LÊGO:

Noites e noites e noites
lia a menina no livro
sem saber que em outras noites
ela estaria no livro

era inocente a menina
nem sabia do artifício
nem sabia do fascínio
nem sabia do perigo

que se escondiam nas páginas
daquele livro infinito
como podia a menina
saber sem fim o seu livro?

 

DAVINOVICH:

Tinhas a fronte reclinada
quando passei por tua sala
e tão absorta parecias
que ergueste o rosto do livro
apenas o suficiente
para dizer... nada disseste.

O mundo poderia ter sido
outro, paisagens e destinos
no vidro da imaginação
mas teu nome virou areia
quando as cartas que escrevemos
tentaram abolir o tempo.

O que poderia ter sido
parece dissolver-se no ar
e quedas absorta no livro.

 

Elizabeth Hazin
ehazin@ig.com.br

Davino Sena
dsena@brazilny.org

  

 

 

 
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