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LARA

 

RÉQUIEM BONCONSELHENSE

Percorri outra vez tuas ruas
como um sonâmbulo narcísico
excessivamente ensimesmado,
seguindo o rastro do
egocentrismo interiorano
de tuas cinderelas agrestinas
e de tua gênese social
que reproduz filhotes de supermachões
e incrusta piedades diarréicas
nos neurônios dos teus jovens profetas
impregnados de timidez
megalômana.

Quem modificará o tutano do teu obscurantismo?
Quem rezará a missa que salvará tua alma
corrompida e entediante?
Quem diluirá a ganância e a vaidade de tua
pequeno-burguesia
sub-provinciana?
Quem cuidará da vida dos teus machos
adoecidos pelo etanol?

Desfilarei mais uma vez,
para a delícia ótica
de tua curiosidade fofoqueira,
meus tumores psicológicos, inclusive
essa autocomiseração
das mais ridículas.
Como poderei freqüentar tuas casas
sem farejar tuas pústulas?
Eu, incuravelmente viciado
nos teus bolos de milho,
teus beijus de macaxeira,
teus pobres monstrinhos que
trocam sacos de cimento por votos
nos novos coronéis.
Eu, que senti as dores
dos teus partos imundos
quando ainda não me via
como o mais doentio dos Peters Pans,
quando ainda não sonhava com
êxtases e samádis
inatingíveis para mim,
quando ainda não sonhava
comida farta para todas as mesas.
Eu, eu, eu,
incuravelmente viciado
e referenciado
em ti,
minha Bom Conselho,
minha coronelíssima Bom Conselho,
minha doce ilha medieval.

 

 

 

 

BIOGRTAFIA ÍNTIMA DE LARA

Zé Luís Miranda nasceu em Bom Conselho (Pernambuco), no primeiro dia do mês de dezembro de 1960, às 10:00 horas da manhã.

Quando "Lara" diz que é alterego de Zé Luís, ele está dizendo que é mais, muito mais, que um mero pseudônimo. Ele está querendo dizer que é um pedaço da personalidade de Zé Luís, da carne psíquica de Zé Luís, o funcionário público. Eu estou falando de bipolaridades dentro de multipolaridades dentro de ultracomplexidades dentro do insondável. Para bom entendedor, duas palavras bastam. Outra coisa: não se esforce para descobrir quem está narrando esta biografia íntima de "Lara". Poderia ser um alguém qualquer, e poderia ser outro heterônimo de Zé Luís. Bom, esqueça isso, é muito complicado. Além do mais, não importa mesmo quem está narrando.

Quando Zé Luís fala que tem dificuldade em trabalhar o seu lado mais racional, ele não está culpando "Lara", um de seus heterônimos, ou melhor, seu alterego principal, por causa dos pendores saturninos /dionisíacos / místicos / abissais deste alterego. Ele, Zé Luís, está apenas querendo dizer que não é fácil pra ninguém lidar com abismos e pélagos desta envergadura.

Já eu mesmo, quando olho para os dois, vejo dois pólos que se complementam. Um, lidando com o lado mais racional-administrativo, necessário para as quantificações e tarefas do dia-a-dia. O outro, lidando com os abismos do inconsciente coletivo e pessoal, o que é necessário para os esforços de crescimento espiritual e artístico. De vez em quando, rola um curto-circuito, mas, entre mortos e feridos, sempre escaparam todos, chamuscados, mas vivos, e relativamente lúcidos.

 

música: Sweet Little Angel (B. B. King)

foto: Sennor Ramos
   

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INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos