| RÉQUIEM BONCONSELHENSE
Percorri outra vez tuas ruas
Como um sonâmbulo narcísico
Excessivamente ensimesmado,
Seguindo o rastro do
Egocentrismo interiorano
De tuas cinderelas agrestinas
E de tua gênese social
Que reproduz filhotes de supermachões
E incrusta piedades diarréicas
Nos neurônios dos teus jovens profetas
Impregnados de timidez
Megalômana.
Quem modificará o tutano do teu
obscurantismo?
Quem rezará a missa que salvará tua alma
Corrompida e entediante?
Quem diluirá a ganância e a vaidade de tua
Pequena-burguesia
Sub-provinciana?
Quem cuidará da vida dos teus machos
Adoecidos pelo etanol?
Desfilarei mais uma vez,
Para a delícia ótica
De tua curiosidade fofoqueira,
Meus tumores psicológicos, inclusive
Essa autocomiseração
Das mais ridículas.
Como poderei freqüentar tuas casas
Sem farejar tuas pústulas?
Eu, incuravelmente viciado
Nos teus bolos de milho.
Teus beijus de macaxeira,
Teus pobres monstrinhos que
Trocam sacos de cimento por votos
Nos novos coronéis.
Eu, senti as dores
Dos teus partos imundos
Quando ainda não me via
Como o mais doentio dos peters pans,
Quando ainda não sonhava com
Êxtases e samádis
Inatingíveis para mim,
Quando ainda não sonhava
Comida farta para todas as mesas.
Eu, eu, eu
Incuravelmente viciado
E referenciado
Em ti,
Minha Bom Conselho
Minha coronelíssima Bom Conselho,
Minha doce ilha medieval.
DECLARAÇÃO
Poesia,
Eu te amo assim mesmo
Como tu és:
Pobretona,
Sem senso prático,
Delirantemente sediciosa,
Obsessiva artesã de simbolismo
Ou trocando as palavras
Por abismos incomunicáveis.
E essa irresistível atração
Por anátemas,
Eu te perdôo, meu bem.
Depravada ou franciscana,
Eu sei driblar teus excessos.
Eu te adoro
Serei sempre teu,
Minha semi-deusa angustiada,
Minha neguinha volúvel,
Minha assanhada
Escafandrista
Do desconhecido.
RECADO SACANA
Escreva pouco,
Seja sintético
E facilmente consumível.
Ninguém tem saco
Nem tempo
Pra ler
O que destoa
Do doce de coco
Midiótico.
A chuva ácida
Sobre a grama
Não traz nenhuma
Mensagem cósmica
Ela é apenas
Química pura.
As coisas são as coisas,
Meu velho. Deixa-as.
Viva intensamente o instante
E esquece-as.
E vê se não enche.
CAMPESINO
Matuto não tem angústias
Nem desejos.
Matuto precisa somente
Comer cuscuz
Assistir à Globo
E esquecer o resto.
NO FIM DO TÚNEL
Por mais que você
Se suicide
Nos seus poemas
Há sempre uma luz ali.
E você morre de vontade
De ligar o interruptor.
Eu sei. |