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Ladjane Bandeira
(1927 Nazaré da Mata/Pernambuco – 1999 Recife/Pernambuco)

 

 


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CANTIGA DA LUCIDEZ INDESEJADA

Meu Deus, não me faças lúcida
Que teus pássaros não são.
Se quiseres serei fada
Como a que vi desenhada
No livro do meu irmão.
Mas só não me faças lúcida
Que meus desejos não são.

Também não me tornes anjo
Que as asas me pesariam
Eu buscaria nas flores
A causa dos meus ardores
E as flores me negariam.
Então não me tornes anjo
Que as flores me perderiam.

As estrelas moram longe
Mas eu não quero as estrelas
Dá-me os pássaros e o rio
Dá-me as estações do estio
Que eu seu pra que vou querê-las
Que aquelas que moram longe
Eu me contento com vê-las.

Mas não, não me faças santa
Que eu não poderia ser
É preciso Ter crescido
Ter pecado e arrependido:
É fazer pra desfazer.

Ai, não, não me faças santa
Que eu nem sei o que é viver
E dizem que pra ser santa
A gente morre pra vida
Mas eu não quero morrer.

Meu deus, não me faças lúcida
Que meus receios não são
E nem dês as estrelas
Deixa, pois, que por sofrê-las
As tenhas sofrido em vão.

Mas nunca me faças lúcida
Que meus desejos não são.
E não me ponhas aureola
Que por usá-la constante
Me daria obrigação.

 

CANTIGA DA RUA MENINA

I

Toda branca de vasias
sentinelas mais que ausentes,
de palavras arredias,
em contornos descontentes.
Oh ! Minha rua menina,
de saia curta e chinelo,
se deixas usar contigo,
teu verde, branco e amarelo,
te escreverei um artigo,
pra comprar um velocípede.

II

De longas sombras vadias,
te desenho uma aventura,
de muitas cores esguias,
eu te faço roupa escura.
Oh ! Minha rua menina,
de saia curta nas coxas,
para pintar os teus gestos.
uso apenas tintas roxas.
Se morreres vão teus restos
Levados de velocípede.

III

Vamos sangrar melodias,
para tirar o vermelho,
que é de toda rebeldia,
cor exata, exato espelho.
Oh ! Minha rua menina,
se quero fazer mostrengo
amarro cordão na lua,
que luz faz mamulengo.
A sombra que não for tua
não irá de velocípede.

IV

Se desenhar as enguias
as farei de camisola
porei cor nas alegrias
que a cor engana e consola.
Oh ! Minha rua menina,
desenho o sol com rabicho
para puxar se quiser.
Só não pinto nenhum bicho
lobisomem: por qualquer
perderia o velocípede.

 

DEPOIS DO "MARE TRANQUILLITATIS"
(A parte de mim que seria astronauta)

I

A SOMBRA CÓSMICA

De um radical hemisfério
Brota um silêncio
sem terra
que flutuando invadimos.

Impondo-nos mão protetora
ele se fez nosso augúrio
no construtivo envolver-nos
já quase astrais continentes.

Nautas e consumidores
senhores condescendendo
achegamo-nos gratuitos.

II

A LUZ NO COSMOS

De outro hemisfério,
o oposto
dentro do sonho primário
de luz contida no vácuo
esse lugar onde as sombras
guardam-se imunes e virgens
mais cruéis do que românticas
a sensação dolorosa
de uma profunda alegria
ante o universo incriado.

III

FRUIÇÃO DO TODO

Insatisfeito vestíramos
esse corpo transitável
misticamente sofrido
em consciência oceânica
sabendo que à nossa volta
clarividente há um Todo
vertendo seu todo em nós.

IV

A BAGAGEM METAFÍSICA

Que somos?
Um conhecer audacioso
o transitar mais complexo ?

Um repensar sem imagens
e sem transitoriedade
como se não existisse
a contingência sutil
do devir que suportamos
bagagem corporal ?

Por que
essa punição tanática
à exaltação do Princípio
redescoberto na forma
e Conteúdo que somos?

Para que
a grandeza da coragem
e o espanto em suportar
conscientes e ajustados
tão fundamente o espanto?

V

CONSCIÊNCIA TANÁTICA

Disso decorre o depois
do “Mare Tranquillitatis” .
A necessária experiência
que havíamos construído
ao fascínio do “por que?”

O transcedente desejo
de que a vida em si riscasse
o que à final Vida fere
no ritmo do seu poema.

Num tal depois cresce claro
um confiar em que o mundo
seja um cristal lendo ao sol
seu mais íntimo arco-íris.

VI

PLENITUDE ÔNTICA

Nesse passo
se compôs a plenitude
do melhor que nós trouxemos
do “Mare Tranquillitatis”
no turbilhão do regresso
à face extrema da Terra
deixada sem relutância.

VIII

ACEITAÇÃO AMADURECIDA DA TRANSITORIEDADE

Já cientes
mais escravos do que donos
descobrimos
que só teremos acesso
à eternidade do Tempo
Incansável
o Depois nos foge sempre
E sofridos
tivemos que admitir
que somos incompatíveis
com a eternidade do ser.

 

 

Fonte:
http://www.ladjanebandeira.org/v8/producaoliteraria.html

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos