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Junior do Bode
(1984 Crato/Ceará)

 

 


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Meu Porto

Naveguei nas correntes de mares distantes
Procurando tesouros a fim de encontrar
Aventuras, sereias e ventos constantes
Que levassem meu barco além de além-mar

As sereias sopravam os sons dos amantes
Atraiu-me aos rochedos, não pude atracar
Pois chegava um ciclone, e rajadas cortantes
Derrotaram meu o barco, que foi naufragar

No barril de esperança a deriva eu rezava
Da tormenta uma onda gigante levava
Minhas forças ao fim; entre sol e neblina

Sob os pés o perigo e acima o deserto
Eis que Vênus puxou-me, deixando-me perto
Em seu porto, Meu Porto seguro, Marinna.

 

ATÉ O MAR TEM VONTADE
DE SER FILHO DO SERTÃO*

O mar um filho querido
Feito pelo o criador
Ingrato pediu favor
Que deixou Deus comovido
O pedido corrompido
Foi outra filiação
Pro sertão na certidão
Ter sua paternidade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

Uma sereia avistei
O São Francisco subindo
Não sei se estava fugindo
Da mares ia, não sei
Pra ela voltar, chamei
Mas não prestou atenção
Seguiu sua direção
Com muita velocidade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

Lá na Missa do Vaqueiro
Eu vi Netuno aboiando
Com gibão de couro andando
Mostrando ser prazenteiro
Curioso fui ligeiro
Saber dessa inovação
Nem fiz a interrogação
Ele me disse: - É verdade:
Até o mar tem vontade
De ser filho cio sertão.

Sei que faz muito calor
De Arcoverde pra lá
Oceano vive cá
Diz que foi no interior
Ver a mudança de cor
Da tarde com seu clarão
Pro roxo da escuridão
Na aquarela da beldade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

Pra ver o fundo do mar
Certo dia mergulhei
E muito feliz fiquei
Porque pude comprovar
Dois siris a derrubar
Numa pista um camarão
Vaquejando a emoção
Da nossa festividade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

As lagostas cangaceiras
Roben Hood dos corais
Levavam pros abissais
Resumos de muitas feiras
As volantes traiçoeiras
A comando de seu João
Um "lagosto" do Japão
Liquidou-as por maldade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

Mergulhando mais a frente
Eu avistei um congresso
De atum fazendo verso
Mais bem feito e de repente
No congresso diferente
De sardinha a tubarão
Prestavam bem atenção
Aos versos de qualidade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

A vontade dos corais
Disse o cavalo-marinho
É ter a forma de.espinho
Dos cactos e dos sisais
No mar em vários locais
Faz sua propagação
Espinhando seu pendão
Crescendo com liberdade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão

Talvez alguém me conteste
Pois vendo isso me encanto
Ver o mar se jogar tanto
Tentando ir pro oeste
Não consegue e faz um teste
O teste evaporação
Voa pelo o seco chão
Depois cai por caridade
Até o mar tem vontade
De ser filho do sertão.

Antônio da Catarina
Viu o mar entristecido
Rasgado e muito ferido
Pela distância ferina
Tapou rasgo com resina
Fazendo adivinhação
Pois deseja o grandão
Antes da eternidade
Falecer sem ter vontade
De ser filho do Sertão.

 

*Mote de Antônio de Catarina

 

Fonte:
Cordel: ATÉ O MAR TEM VONTADE DE SER FILHO DO SERTÃO
Autor: Junior do Bode
Edições Araripy
Olinda 2005

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos