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Julio Vila Nova
(1971 Recife/Pernambuco)

 

 


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PRIMEIRO CANTO

Ouço o mar bramindo a sua dor
de haver criado adeus
e abreviado o amor dos náufragos

Onde agora ecoa o peso dos abraços
vagam planos para sempre adiados
sob as águas

Pairam tantas mãos inúteis, sal
das nuvens que não sabem mais
o antigo bálsamo dos ventos na alma

Ouço o mar, que enfim entoa em cântico
as dobras do destino - incerto como a sorte dos sinais perdidos –
nas dobras do silêncio

 

RESSACA

Estamos todos dispersos
entre sonhos recriados do passado
e um cálice de felicidades incompletas.

Somos nossa própria sede que se rega
ante a vastidão do mar
uma solidão de gelo e pedras.

Órfãos pela noite de um tempo sem sentido
vamos procurando o que de resto
haverá de algum possível paraíso.

Mas à hora inválida quando os bares todos fecham
a boemia silencia das bocas amargas
o grito aprisionado nas garrafas

 

PARA AMIGOS AUSENTES

Quando a tarde ensaia seus tormentos
E a noite é prenúncio de vazios
Nenhuma rua se abre em caminhos
A quem já não suporta este silêncio.

O tempo de sorrir não nos consente
Nem da lembrança mínima paisagem
E vamos, como mortos de cansaço,
Perturbar a esperança inutilmente.

E nessa hora morta, fim do dia,
Renasce do passado a companhia
Das idéias, os laços de amizade
Perdidos no desvão das ventanias.

 

ESTAÇÃO

Sou um homem sozinho na estação
depois do adeus.
Arde o inverno desalento das mãos
em derradeiro gesto,
o frio paralisa na Luz
o último aceno.

Os destinos se cruzam
na agonia das distâncias
e na dureza das linhas
que se ocuparão de embrenhar-se
noites afora a vida inteira
a rastrear lembranças deste dia.

Sou um homem sozinho na estação.
A mão sustenta apenas
o breve instante de um cigarro
a vida segue a sua engrenagem
a cidade não sabe a minha angústia
de tudo o que me resta é um cigarro
para o frio demasiado inverno
e as suposições do rumo da fumaça.

Acato, enfim, as sobras da manhã
e escolho caminho incerto
entrecortada a alma, o passo entregue
perdido sobre o mapa da saudade
deserto pelas ruas de São Paulo.

 

juliovilanova@ig.com.br

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

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