PRIMEIRO CANTO
Ouço o mar bramindo a sua dor
de haver criado adeus
e abreviado o amor dos náufragos
Onde agora ecoa o peso dos abraços
vagam planos para sempre adiados
sob as águas
Pairam tantas mãos inúteis, sal
das nuvens que não sabem mais
o antigo bálsamo dos ventos na alma
Ouço o mar, que enfim entoa em cântico
as dobras do destino - incerto como a sorte dos sinais perdidos –
nas dobras do silêncio
RESSACA
Estamos todos dispersos
entre sonhos recriados do passado
e um cálice de felicidades incompletas.
Somos nossa própria sede que se rega
ante a vastidão do mar
uma solidão de gelo e pedras.
Órfãos pela noite de um tempo sem
sentido
vamos procurando o que de resto
haverá de algum possível paraíso.
Mas à hora inválida quando os bares
todos fecham
a boemia silencia das bocas amargas
o grito aprisionado nas garrafas
PARA AMIGOS AUSENTES
Quando a tarde ensaia seus tormentos
E a noite é prenúncio de vazios
Nenhuma rua se abre em caminhos
A quem já não suporta este silêncio.
O tempo de sorrir não nos consente
Nem da lembrança mínima paisagem
E vamos, como mortos de cansaço,
Perturbar a esperança inutilmente.
E nessa hora morta, fim do dia,
Renasce do passado a companhia
Das idéias, os laços de amizade
Perdidos no desvão das ventanias.
ESTAÇÃO
Sou um homem sozinho na estação
depois do adeus.
Arde o inverno desalento das mãos
em derradeiro gesto,
o frio paralisa na Luz
o último aceno.
Os destinos se cruzam
na agonia das distâncias
e na dureza das linhas
que se ocuparão de embrenhar-se
noites afora a vida inteira
a rastrear lembranças deste dia.
Sou um homem sozinho na estação.
A mão sustenta apenas
o breve instante de um cigarro
a vida segue a sua engrenagem
a cidade não sabe a minha angústia
de tudo o que me resta é um cigarro
para o frio demasiado inverno
e as suposições do rumo da fumaça.
Acato, enfim, as sobras da manhã
e escolho caminho incerto
entrecortada a alma, o passo entregue
perdido sobre o mapa da saudade
deserto pelas ruas de São Paulo.
juliovilanova@ig.com.br
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