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José Rodrigues de Paiva
(1945 Coimbra/Portugal)

 

 


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O DESPERTAR DO CANTO
O silêncio do canto
é a voz do poema
que se constrói à noite
mesmo ainda sem tema.
         O silêncio e o seu canto
         estão na voz da canção
         que adormece no peito
         e desperta na mão
do poeta que canta,
silenciosamente,
sob as águas do poema
que nascem mansamente.
         O silêncio das águas
         de onde flui a poesia
         traz um canto de sol,
         traz o sonho de um dia
que se abrirá inteiro
ao clarão do poema,
acesa luz, romã,
a alegria por tema.
         O silêncio do fruto
         é um canto maduro
         elaborando a seiva
         do poema futuro.

 

NEGREIROS DO MARALTO

No maralto das lendas impossíveis
navegam caravelas de outros tempos,
levando nos porões acorrentada,
a saudade dos negros e dos ventos.

Entre as brumas cinzentas da incerteza,
enfrentando tufões e maremotos,
rasgam as águas sem fim do oceano,
indo em busca de algum país remoto.

Sob o fogo do sol ou das estrelas,
perseguem sempre o horizonte azul.
olhando a bússola , o timoneiro vira
o leme e toma a direção do sul.

Mas quando um porto encontram e as amarras
atam ao cais de pedra rija e fria,
desaparece o mar e as caravelas
e outro sonho mais alto principia.

 

 

Fonte:
Estação Recife
Coletânea Poética 2
2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
ORGANIZADORES: Everardo Norões - José Carlos Targino - Pedro Américo de Farias

 

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