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José Pereira Andrade
(1962 Sítio Ferreiro, Bodocó/Pernambuco)

 

 


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GAVIÃO FERIDO

Fui ver o verde do campo
De pureza me revestir,
Ao invés de cantar, senti
Do peito rolar mil prantos.

Foi grande meu desencanto
Fugiu-me a inspiração
Quando vi um gavião
Preso sem sair do canto.

Seu desespero era tanto
Estava de asa quebrada,
Na jurema prateada
Era ela seu acalanto.

Gavião o teu espanto,
Logo a mim denunciou,
O homem tal caçador
Causador desse teu pranto.

As folhas eram seu manto
Já não havia destreza,
Em seus olhos só tristeza,
Fez-me gerar esse conto.

 

A BARAUNA

De consciência inquieta
A mente repousa tristonha
Ao lembrar tal formosura
Tal mente acordada sonha
Vendo pássaros pousarem
Entre seus galhos e sombras

Após ter tombado sem vida
És parte de uma janela
Guardando hoje animais
Em formato de cancela
Peão prendendo-a a haste
Um portal faz sentinela

Foi-se a chuva, o passarinho
A renovação do ar
O homem fica sozinho
Mente triste a reclamar
O seu canto é um lamento
Os olhos vivem a chorar.

 

ESSÊNCIA

Agradeço-te pela flor
Que alegre recebi
Ela é símbolo do amor
Existente entre mim e ti

A ternura, a singeleza
Traduzida nessa flor
Em síntese traz a beleza
Do mais belo e puro amor

Amor que nasceu um dia
Duma troca de olhar
E que ao som de melodias
Nos conduziu ao altar

Hoje esta flor reaviva
As chamas de um bem sem fim
Hei de trazer sempre viva
A essência dentro de mim.

 

FRAGILIDADE

Nada no mundo machuca
Igual a ingratidão humana
Fere a sensibilidade
Do íntimo o sofrer emana
O espírito perde a calma
Fere o âmago da alma
O viver se desengana

O desejo de servir
Vai ficando diferente
O amor já não é o mesmo
Diante do intransigente
Sofreu tal mutilação
O senso perde a razão
Difícil é lidar com gente

Idéias se desintegram
Perdem a articulação
O ser frio calculista
Antes era compaixão
Em sua totalidade
Fica sem mobilidade
Perde o poder de ação

Tanto quem sofre o dano
Quanto quem pratica a ação
Não entendeu a mensagem
No íntimo do coração
Não se deve ferir ninguém
Retribuir o mal com o bem
Disse o autor da salvação.

 

SARIEMA SOLITÁRIA

A manhã ensolarada
Por um sol bem nordestino
Minha vista ao longe alcança
Um pássaro a correr sem tino
Deixe-me ver-te sariema
E sentir-me qual menino

Pernas longas a correr
Olhar cheio de temor
Cor cinza da mata seca
És a única que restou
Nós de ti sentimos saudade
A natureza sente a dor

Espera-me sariema
Eu quero ser teu amigo
Tristonho pássaro não voe
Nem tenha-me como inimigo
Sei que tu estás sozinho
E que também não tens abrigo

Teu coração está ferido
A flechada te acertou
Acertou também a mim
Ferido profundo estou
Sei que não mais te encontro
Só angústia em mim ficou.

Testemunha ocular:
Antônio Reginaldo

 

 

Fonte:
A Força do Amor
José Andrade
Bodocó/PE

 

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