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José Mário Rodrigues
(1947 Flores/Pernambuco)

 



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VIGÉSIMO SÉTIMO MOTIVO 
Ó desventurada sorte
que perdeu o senso de espera
e não se bastando
              desordenou o vácuo.
Que queres mais
senão me perseguir
fazendo rastro negro em pedra fria ?
Ó desventurada fé
que nem um círio queimou em minhas trevas
mas insiste em ficar aqui
 juntando réstias
Escuta o rumor dos túmulos
Há um fogo que se fechou em círculo
e conduziu um trem para o absurdo.



UMA ORAÇÃO
Ó adorável promiscuidade
Tomai conta de mim.
Está dormindo o que alcançarei
na contemplação última do nada.
Desperdiçai a minha alma
Restitui-me de todas as misérias
que rolam desabrigadas pelas esquinas
Quero-te
neste momento longínquo
                            de solidão latente.
Há uma pureza que vem do teu inferno
e me queima
na desordem criadora de tua chama
adorável promiscuidade
que só me ensinaram a repudiar
Ó doce tempestade movendo-me de prazer
Já usei por demais delicadeza
Turvai agora a minha noite
e mandai teu anjo
          para que anuncie o amor



DECISÃO
Estarei contigo para juntar
as ramagens que crescem na nudez fria dos muros
onde os amantes dizem palavras límpidas
                                                e sem pudor.
Estarei contigo
como naus costruídas de horizonte
navegando sob fortalezas de neve
Atravessaremos o novo e o antigo
e quando chegarmos ao cais
fundado de intemporal
eu te darei minha mão
como te dei meu verso
e proclamarei ante as planícies reveladas do ar:
                                             Aqui é meu Universo.



RESÍDUOS
Letra após letra
e a vida toda
sem conseguir escrever
os versos do amor de que necessitamos.
Por isso
é necessário saber a hora de se retirar
                            sem ser notado.
Depois da última estação
só nos resta a desordem dos epitáfios
nos cemitérios soterrados.



SECA II
Onde havia uma árvore
adormece uma forma estranha.
Dos bois, cabras e cavalos
restam os olhos a crescer
           entre o espanto e a terra morta.
Rezo a Deus
e nem uma nuvem escurece
          como prenúncio.
Ah, como tardam as decisões do Eterno!
E por que não saem logo do fundo da terra
os monstros desse inferno?



CONVICÇÃO
Todos os meus anos
e o resto dos meus dias.
Os livros imaginados
na constelação da alegria.
Tudo o que restou
do tempo da calmaria.
Ou dos ventos vindos do mar
varrendo a alma vazia.
Toda a palavra escrita
no sangue que se fez poesia
e a emoção derramada
num gesto que amanhecia.
Todo sonho desvelado
no brilho das três-marias:
não vale um momento de amor:
travessia entre o desejo,
o prazer e a dor.



TEMPO PERDIDO
Velhas cicatrizes isoladas
no canto da alma vazia.
Na rua a cruz desfeita
e o vasto sol do meio dia.
Junto aos corações amigos
está um abrigo de paz.
Os fracos ruminam mágoas
que a morte vem e desfaz.
E cerra-se para sempre
a boca que tanto falou.
Um tempo todo perdido
que o ódio nunca enxergou.



OBJETO
É ofício do morto
fechar os olhos.
Ele não precisa
              do pranto de ninguém.
É ofício do morto
silenciar a dor
não dissimular
              a ausência
nem a frieza de suas mãos.
O morto não precisa
             de flores nem de reza.
O morto é objeto
do que foi o desejo.

 

 

Fonte:
Estação Recife
Coletânea Poética III
Recife - 2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
Organizadores: Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos