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José
Mário Rodrigues
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VIGÉSIMO SÉTIMO MOTIVO Ó desventurada sorte
que perdeu o senso de espera
e não se bastando
desordenou o vácuo.
Que queres mais senão me perseguir fazendo rastro negro em pedra fria ? Ó desventurada fé que nem um círio queimou em minhas trevas mas insiste em ficar aqui juntando réstias Escuta o rumor dos túmulos Há um fogo que se fechou em círculo e conduziu um trem para o absurdo. UMA ORAÇÃO Ó adorável promiscuidade
Tomai conta de mim.
Está dormindo o que alcançarei
na contemplação última do nada.
Desperdiçai a minha alma
Restitui-me de todas as misérias
que rolam desabrigadas pelas esquinas
Quero-te
neste momento longínquo
de solidão latente.
Há uma pureza que vem do teu inferno
e me queima
na desordem criadora de tua chama
adorável promiscuidade
que só me ensinaram a repudiar
Ó doce tempestade movendo-me de prazer
Já usei por demais delicadeza
Turvai agora a minha noite
e mandai teu anjo
para que anuncie o amor
DECISÃO
Estarei contigo para juntar
as ramagens que crescem na nudez fria dos muros
onde os amantes dizem palavras límpidas
e sem pudor. Estarei contigo como naus costruídas de horizonte navegando sob fortalezas de neve Atravessaremos o novo e o antigo
e quando chegarmos ao cais
fundado de intemporal
eu te darei minha mão
como te dei meu verso
e proclamarei ante as planícies reveladas do ar:
Aqui é meu Universo.
RESÍDUOS
Letra após letra e a vida toda sem conseguir escrever os versos do amor de que necessitamos. Por isso
é necessário saber a hora de se retirar
sem ser notado.
Depois da última estação só nos resta a desordem dos epitáfios nos cemitérios soterrados. SECA II Onde havia uma árvore adormece uma forma estranha. Dos bois, cabras e cavalos
restam os olhos a crescer
entre o espanto e a terra morta.
Rezo a Deus
e nem uma nuvem escurece
como prenúncio. Ah, como tardam as decisões do Eterno! E por que não saem logo do fundo da terra os monstros desse inferno? CONVICÇÃO Todos os meus anos e o resto dos meus dias. Os livros imaginados na constelação da alegria. Tudo o que restou do tempo da calmaria. Ou dos ventos vindos do mar varrendo a alma vazia. Toda a palavra escrita no sangue que se fez poesia e a emoção derramada num gesto que amanhecia. Todo sonho desvelado no brilho das três-marias: não vale um momento de amor: travessia entre o desejo, o prazer e a dor. TEMPO PERDIDO Velhas cicatrizes isoladas no canto da alma vazia. Na rua a cruz desfeita e o vasto sol do meio dia. Junto aos corações amigos está um abrigo de paz. Os fracos ruminam mágoas que a morte vem e desfaz. E cerra-se para sempre a boca que tanto falou. Um tempo todo perdido que o ódio nunca enxergou. OBJETO É ofício do morto
fechar os olhos.
Ele não precisa
do pranto de ninguém.
É ofício do morto
silenciar a dor
não dissimular
a ausência
nem a frieza de suas mãos.
O morto não precisa
de flores nem de reza.
O morto é objeto
do que foi o desejo. |
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INTERPOÉTICA
© 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos |
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