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José Maria Almeida Marques
(1947 Buíque/Pernambuco)

 

 


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MEMENTO MORI

É tempo de morrer
É chegado o tempo de morrer
Há um tempo de semear o trigo
Há um tempo de comer o pão
Há um tempo de plantar a vinha
Há um tempo de beber o vinho.
Há um tempo de amar
Ah, o tempo de se amar
Há um tempo quando
já não há mais tempo.
Mori memento.

 

O MELHOR QUE A VIDA TEM

Perguntou o poeta Renan
de quem eu sou amigo e fã
que coisa melhor existe
nesta nossa vida vã
numa boa roda de amigos
a gente assim conversando.

Como é muito bom o tema
eu o transformo em poema
porquanto esta vida tem
tanta coisa que faz bem
há uma grosa de centenas
que responder eu não sei.

Mas para essa discussão
eu conclamo o ectoplasma
do bom Manoel de Julião
que também é poeta, amigo
e que há anos me habita
embora viva no empíreo.

Melhor que dois olhos verdes
de uma morena bonita
com seu vestido de chita
só mesmo dois olhos verdes
de uma morena bonita
quando a morena me fita.

Melhor que poema de Augusto
só um outro poema de Augusto
que sempre quando eu recito
me vem um choro bonito
pelas belezas que encerra:
Jesus não morreu, vive na Serra.

Quando o time do Sport vence
Meu Deus do céu, que bonança
resto feliz feito criança
não quedo velho, cansado
eu estava é lá no gramado
e ainda fiz um gol de falta.

Raquel quando vem, me abraça
anjo de risos e de graças
dizendo - vovô tu é lindo
eu pobre poeta, decaído
pelas forças dos destinos.
É a melhor coisa da vida.

Cruel me interrompe Manoel
ele que é poeta imoral
e diz: - Zé do Bodocó
se passará um ano ou mais
mas tudo não se registrará
da vida o que há de melhor.

É repto muito difícil
mas o que existe na vida
de mais bonito lhe digo
uma coisa impressentida
que saquei faz poucos dias:
é duma morena o umbigo.

Jesus, é a coisa mais linda.
Um umbigo é mel, abismo
Não desses rasos, dos fundos
numa morena barriga
que a gente pega e alisa.
É o vórtice mais profundo.

Melhor delícia do mundo
um black hole no ventre
os meus desejos sugando
astro do meu firmamento
só mesmo quem é demente
é que isto não compreende.

Disse-me e calou seu estro
este poeta tão perverso
a gente em tão boa conversa
eu falando na netinha
e vem ele com putaria.
Eu vou encerrar estes versos!

 

A EXCELÊNCIA DA CAJUÍNA SÃO GERALDO

Num samba no Exu corri duma briga
muita bala havia mas não era comigo
peguei a morena, fomos logo embora
e quem nos salvou foi Nossa Senhora.
Quando moço tive uns curto-circuitos
no cérebro e também uns remorsos
quem me curou foi o bom dr. Othon
desde esse dia perdi medos, sobroços.

Bebi absinto, no Gethsêmane sentado
ao lado sofria Jesus Cristo prostrado
de nada adiantou ali eu ter dissertado
sobre a excelência da Cajuína São Geraldo
fera taça de fel ele já tinha ao seu lado
mas é muito gostoso aquele acajuinado
quando você está relax e despreocupado
em rede branquinha e o seu amor ao lado.

 

O CEMITÉRIO DE BODOCÓ

Para João Cabral de Melo Neto

É mais plano do que a vida
o cemitério de Bodocó
é paupérrimo de jazigos
há, atrás, campo de futebol
isso é bom porque os mortos
não ficam assim tão sós.

Em dias de jogo seu muro
serve aos vivos, arquibancada
porém, a torcida intra-muro
esta permanece calada
mas já viveram, torceram
aquelas vidas enterradas.

Frondoso pé de Juazeiro
no seu flanco está fincado
mas os restos que lá habitam
não desfrutam o sombreado
somente uma rasga-mortalha
libera ali seus grasnados.

E naquele campo santo
há um túmulo inusitado
é o da família Marques
onde um dia vou, levado
e o inusitado é porque
é um túmulo coletivizado.

Encimado por capelinha
há grande e único buraco
corpo e caixão, decompostos
ao fundo vão, em pedaços
avós, pais, primos e tios
morando ali misturados.

Eu tenho cá muito orgulho
dessa idéia antepassada
posto que assim meus mortos
vivem menos solitários
eu próprio, quando for lá
terei de mãe novo abraço.

Um dia pedi a meu Tio Edson
que se foi no mês passado
não deixar nunca eu e ela
mesmo mortos, separados
nossa última morada é ali
nós dois sorrindo, abraçados.

 

NINGUÉM TEM TRANÇADO DE PERNAS FEITO NÓS

Um amigo meu chegou-me um dia e disse:
Zé Maria, você é realmente um tarado
porque há trinta anos lhe conheço
você sempre amando, dormindo com Flávia.
Diante dessa tão verdadeira constatação
procurei encontrar uma explicação
pois, convenhamos, isso não tem muita lógica.
Eu a conheci em 1966 ou 1967
passados tantos anos a gente não lembra bem
no Cursinho de Vestibular da FDUFPE
naquele tempo eu já tentava ser poeta
coisa que, presentemente, continuo tentando.
Ela não era a mais bela da classe
nem a musa que se podia escolher
é verdade que tinha um rosto bonito
mas o corpo era magro e finas as pernas
hoje, praticamente, ela não mudou
embora esteja um pouco mais cheia de carnes.
Ela, enfim, não me buleversava.
Mas, as coisas do amor são inexplicáveis
e eu não sei o que deu em nós dois
o fato dela saber Shakespeare de cor
creio que, para mim, ajudou um pouco
mas tudo deve ser mesmo essa coisa
meio ridícula de se achar a cara-metade.
Só sei lhes dizer, amigos leitores
que bateu, assim, um surto entre nós dois
uma combinação de peles e glândulas
porque a gente não ficava um dia separados
e eram beijos e bolinações para todo lado
rolações nas areias das praias de Olinda
amassos no Diretório Acadêmico
uma eletricidade estática sempre nos juntando
tudo com alegria e tesão incomensuráveis.
Lembro que um dia fiquei escondido
entre uns tijolos no quintal de sua casa
e depois da meia-noite ela desceu
pela varanda do seu quarto no 1º andar
e ficamos amando em silêncio no jardim
só escutando o vento farfalhar no coqueiro
e aquilo foi uma maravilha, um Éden.
O certo é que terminamos nos casando
já vão passados mais de 28 anos
com um abismo aqui e outro acolá
mas aquela velha chama ainda arde.
Além do mais, após tantas alegrias, dores
envelhecendo, vendo partir entes queridos
somos hoje grandes parceiros, companheiros
um olhar cruzado valendo mais que palavras
idem um sorriso conspícuo trocado.
Somente geramos dois filhos porque
ela cismou, cismou e não quis mais
uma fêmea e um macho, arretados
algumas vezes complicados, principalmente
Marcela, cagada e cuspida à mãe
mas dos quais me orgulho, me envaideço
pois, o fim da vida não é mais do que isso
dois velhinhos se amando e encrencando
um com o outro, dentro de casa
rindo dos bons e velhos tempos passados
olhando a descendência que vai deixar
os netos que chegam trazendo alegria
reinaugurando a existência e os sonhos
esperando a morte que um dia virá.
Eu sei que Maria Flávia, às vezes
é complicada pra caralho, mas
as mulheres são mesmo desse jeito
sua inteligência é, provavelmente
muito melhor do que a nossa, de homens
mas elas raciocinam muito enviesada,
sensitiva e circunloquialmente.
Portanto, eu não tenho quase explicação
para justificar essa tão duradoura
convivência minha e de Maria Flávia.
Nós até somos muito orgulhosos
e duros, ás vezes, um com o outro
rolando entre nós uma entropia terremótica.
A maioria das pessoas acha
o nosso amor estranho, áspero.
Umas dizem, até:- não sei como
Zé Maria gosta tanto de Flávia.
Outras falam exatamente vice versa.
De maneiras que, de modo tais
só posso lhes dizer, sinceramente
que nosso amor deve ser por conta
dessas coisas do destino mesmo
por causa de nossas abluções de cerveja
ou, então, porque, efetivamente
ninguém tem trançado de pernas feito nós.

 

 

Fonte:
Livro Concebidos com Pecado
Edições Bagaço
Recife 2002

 

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