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José Honório da Silva
(1963 Recife/Pernambuco)

 

 


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N O P Q R S T U V W X Y Z

 

 

O MARCO CIBERNÉTICO
CONSTRUÍDO EM TIMBAÚBA

Analisei meu sistema
de construir poesia
explicitei variáveis
debuguei a teoria
nesse meu fazer poético
fiz a reengenharia.

Abri mão de alguns preceitos
definindo objetivo
deletando os paradigmas
que deixavam-me inativo
hoje escrevo em notebook
de um modo interativo.

Não preciso da INTERNET
para acessar minha musa
quem assim crer, certamente
tem uma mente obtusa
pois nenhum computador
me dirá como produza.

Nos primórdios desta arte
quando um poeta fecundo
escrevia seus romances
tinha um trabalho profundo
um a um, manualmente
reproduzia pro mundo.

Só depois veio a imprensa
com a sua tipografia
cópias mil rapidamente
brotavam de noite a dia
só assim se espalhou
no sertão a poesia.

E nas décadas recentes
com xerox e off-set
o cordel sobreviveu
naquilo que lhe compete
concretizar qualquer tema
que um poeta projete.

Se pena, lápis, caneta
cumpriram sua missão
e a máquina de escrever
deu sua contribuição
que mal há em nos valermos
da nova computação.

Não importa por qual via
o verso chegue ao leitor
se impresso em tipos móveis
fax ou computador
impor sim, que traduza
um espírito criador.

Sendo assim vou digitando
os versos neste teclado
e após dar uns retoques
pra ficar do meu agrado
faço, refaço e altero
somente o que julgo errado.

Já concluído o trabalho
devidamente editado
em VENTURA ou PAGE MAKER
o verei concretizado
do micro pra impressora
num instante é transportado.

Se tenho poucos recursos
faço pequena edição
distribuo com aquele
que tem admiração
pela arte popular
e preserva a tradição.

Se um, ou dois, ou três centos
de folhetos vão à praça
narrando fatos singelos
com arte, malícia e graça
a tradição do cordel
nesse recanto perpassa.

Sou vate moderno, pois
uso a tecnologia
mas procuro ser fiel
à minha filosofia
de manter toda a estética
secular da poesia.

Confio que essa ação
de algum modo incentiva
alguém mais a escrever
e buscar alternativa
para que nosso cordel
se renove e sobreviva.

Musa minha, por favor
não se sinta desprezada
somente por minha lira
ficar informatizada
pois rendi-me à HIGH-TEC
pra vê-la ressuscitada.

Pra defender a minha trova
e o meu trabalho poético
projetei um monumento
de grande valor estético
que virá ser conhecido
como o MARCO CIBERNÉTICO.

Projetei num AUTOCAD
(programa pra arquiteto,
engenheiro e coisa e tal)
e a partir desse projeto
construirei esse Marco
no meu canto predileto.

Aqui mesmo em Timbaúba
ele será erigido
as paredes de plutônio
o deixarão garantido
até contra a bomba-atômica
ela estará protegido.

Por câmaras diminutas
aos milhares espalhadas
estará monitorado
em todas suas entradas
barrando assim as visitas
tidas como indesejadas.

No Marco só entra quem
dispuser de sua senha
ou um cartão magnético
que por acaso detenha
ou então qualquer artista
que com boa intenção venha.

Faróis de infravermelho
importados do Japão
farão com que os sensores
em qualquer situação
percebam os intrusos
até na escuridão.

Todo sistema do Marco
até mesmo o mais banal
será também controlado
num computador central
mesmo que falte energia
seu uso será normal.

Estará bem protegido
da poluição sonora
dos carros de propaganda
(valei-me Nossa Senhora!)
e dos cantores medíocres
que surgem de hora em hora.

Antenas muito sensíveis
todos os sons filtrarão
Beethoven, Gonzaga, Beatles
nenhum problema terão
mas os falsos sertanejos
na certa não passarão.

Um tal de HOUSE também
nem adianta tentar
pois no meu Marco só toca
se for música popular
do tipo de Geraldinho,
Zeto, Xangai, Elomar.

O Marco também terá
um grande pátio de eventos
onde artistas brasileiros
mostrarão os seus talentos
e o povo terá acesso
a mais de 100.000 assentos.

Esta praça disporá
duma sonorização
de primeira qualidade
e boa amplificação
mas os vizinhos do Marco
não se incomodarão.

A acústica desse Marco
será bastante avançada
a qualidade do som
será bem eqüalizada
mas quem estiver de fora
de dentro não ouve nada.

E canhões de raios laser
hão de projetar imagem
nos céus, daqueles artistas
que já fizeram a viagem
derradeira desta vida,
numa justa homenagem.

Dois robôs armoriais
vão trabalhar de porteiros
e barrarão sem temor
vagabundos, forasteiros,
vendedores de consórcios
e outros aventureiros.

Quem achar que com robôs
a recepção será fria
há de encontrar-se com jovens
esbanjando simpatia
na chegada do meu Marco
só falando em poesia.

Neste Marco Cibernético
haverá uma editora
para publicar poetas
também uma gravadora
e que for artista plástico
terá uma curadora.

No Marco os computadores
estarão interligados
às grandes instituições
e a muitos bancos de dados
e quem quiser fazer uso
tem acessos liberados.

Um sistema mais moderno
no marco todos terão
de TV interativa
de alta definição
onde o espectador
faz a sua programação.

No meu Marco a multimídia
será tema corriqueiro
teremos CD-ROM sobre
embolador, violeiro,
rezador, homem-da-cobra,
doutor-raiz e vaqueiro.

A Vida de Vitalino,
de Padim Ciço Romão
e do Capitão Pereira,
de Pinto e do Frei Damião,
Leandro, Zé Marcolino,
de Gonzaga e Lampião.

No meu Marco Cibernético
toda essa inovação
estará sempre a serviço
de uma preservação
dos nossos velhos costumes
sem ferir a tradição.

As violas terão vez
em toda a festividade
junto ao pandeiro e rabeca
estarão bem à vontade
em convivência pacífica
com toda modernidade.

As crianças no meu Marco
desde cedo irão usar
os recursos da informática
para melhor estudar
mas também irão ter chance
de aprender improvisar.

Ainda enfrento um problema
de difícil solução
pois não achei quem fizesse
pequena adaptação
num forno de microondas
conforme a minha intenção.

No projeto desse forno
um grande grupo se empenha
para que esse microondas
uma qualidade tenha
deixe o gosto da comida
como cozida na lenha.

Para dormir no meu Marco
em cada um aposento
tem cama, também tem rede
que dispõe dum instrumento
que ela balança sozinha
num ritmo gostoso e lento.

E na sala de visita
terá poltrona macia
na qual um dispositivo
nos renova a energia
com massagens relaxantes
para os desgastes do dia.

Se acaso quiser com
alguém me comunicar
no meu Marco Cibernético
falo de qualquer lugar
porque tem sistema de
telefone celular.

As escolas do meu Marco
irão ter computador
em cada sala de aula
para que o professor
tenha mais um instrumento
de ensino a seu dispor.

No Marco também terá
a arte pernambucana:
os anjos de Zé do Carmo
artesão lá de Goiana
de Tracunhaém a arte
que do barro lá emana.

As redes de Timbaúba
os bordados de Passira
e também lá de Pesqueira
que todo mundo admira
nesse meu Marco há de ter
quem duvidar que confira!

Peças de papel-marchê
de Luciana do Pina
outras do Mestre Saúba
grande artesão de Carpina
e as carrancas de Ana
vindas lá de Petrolina.

Terá máquina de ficha
muito moderna e bacana
no lugar de Coca-Cola
criação americana
há de servir bem gelado
o doce caldo-de-cana.

Uma rede de franchising
em português é franquia
no meu Marco instalarei
para servir iguaria
qual Restaurante de Mira
ou o Buraco da Jia.

Com bode assado ou cozido,
sarapatel e buchada,
mão-de-vaca, manguzá,
com caranguejo e peixada
e galinha à cabidela
a mesa estará forrada.

Quando o Marco Cibernético
ficar pronto e acabado
você, meu caro leitor
irá ser meu convidado
para a inauguração
aguarde então meu chamado.

Hoje o Marco é só um sonho
porém não só ilusão
pois acho perfeitamente
que pode haver união
entre o novo e o antigo
concorda comigo, ou não?

 

O TEMPO DOS HOLANDESES

Zé Limeira num sonho me ditou
Estes versos que jogo no papel
Assumindo o formato de um cordel
Atendendo ao que ele encomendou
O poeta no sonho me falou:
"- Venho aqui prodologicadamente
Tibungar no passado mais presente
Que o futuro deixou nessa visagem
Catembando o juízo em homenagem
À brabeza do povo tão valente".

Holandês que nasceu lá na Alemanha
Foi Nassau muito chique e sabichão
Era fã de Gugu e de Faustão
E por isso aprendeu ligeiro a manha
Foi aos bregas, lá dentro pegou xanha
Trouxe gente de lá pra fazer festa
Adorava um pagode, uma seresta
Mas também fez um grande investimento
E além de uma indústria de cimento
Plantou erva pertinho de Floresta.

Descobrindo Nassau ter diabetes
Pelo açúcar daqui viu-se atraído
Se comenta que foi doido varrido
Por comer rapaduras em tabletes
Se juntou a um monte de pivetes
Pra pular lá das pontes construídas
Mergulhando nas águas divertidas
Do Capiba, do Duda e do Spok
Foi jogar dominó só levou toque
Não vencendo nenhuma das partidas.

Quando o Conde Maurício aqui estava
Nem pensou construir um aeroporto
E por ter João Nassau um lado torto
Costumava beber no Bar da Fava
Mas sabemos que ele bem gostava
Dos botecos lá do Recife Antigo
Certa vez juntamente com um amigo
Tomou todas até cair na rua
E o jornal publicou uma foto sua
Com um piercing encravado no umbigo.

Se engraçou certa vez de uma vaca
Holandesa dos peitos turbinados
Essa vaca enfrentou todos soldados
Todos eles meteram-lhe a macaca
Porque era do tipo que ataca
Qualquer um sem saber no que vai dar
Porém quando Nassau quis lhe agradar
Ela disse: "- meu bem, o boi chegou"
Nassau puto parou e então mandou
Os seus homens fazerem boi voar.

Quando Eckout veio cá pintar o sete
Juntamente com Post fez miséria
Com o povo daqui, uma coisa séria
Essa história que ainda se repete
Fez nas talhas cortando a canivete
Pra vender no Mercado da Ribeira
Negros, índios, mamões e macaxeira
Jerimum, caranguejos e araruta
Mas por conta de um xexo numa puta
Retornou para a Europa na carreira.

Ana Paes, essa eu soube pois que era
Mulher macho e por isso em casa a forte
Quem casou-se com ela trouxe a morte
Para si, já se diz, também pudera
Agüentar os caprichos da megera
Ninguém pôde, e até mesmo nem convinha
Ou lhe dava um quebranto, uma morrinha
Ou findava na bala ou no punhal
Eu nem sei se Maurício de Nassau
Quis saber dos encantos que Ana tinha.

João Fernandes doidinho pra se livrar
Do domínio holandês que lhe explorava
Além disso no bingo não deixava
Esse povo daqui se aventurar
Entendeu que os tinha que expulsar
No trabuco, na espada e no canhão
Com André, com Henrique e Camarão
Com triango, zabumba e com sanfona
Fez o povo holandês deixar a zona
E render-se lá na Restauração.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

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