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José Costa Leite
(1927 Sapé/Paraíba)

 

 


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O ENCONTRO DE LAMPIÃO COM ANTÔNIO SILVINO

Peço proteção a Deus
Nas poesias que faço
Saúde e felicidade
Enquanto copio e traço
Este conto nordestino
A luta de Antônio Silvino
E Lampião, Rei do Cangaço

Muita gente já conhece
A história de Lampião
Que andou pintando o sete
Pelas terras do sertão
Seu nome era Virgulino
E com Antônio Silvino
Mostrou ser o campeão

Todo mundo já conhece
Sua história e seu passado
Porém existe detalhe
Que ainda não foi contado
E o poeta popular
Se apresenta pra contar
Deixando o povo informado

Sabemos que Lampião
Foi corajoso, demais
Não tinha, medo de nada
Por ser astuto e sagaz
Muito vivo e competente
De um sujeito valente
Andava 10 léguas atrás

E assim correu a fama
Do cangaceiro afamado
Que andava no sertão
Deixando o povo assombrado
Mas com Antônio Silvino
Ele ainda falou fino
E viu o sol nascer quadrado

Silvino sempre fazia
Caminhadas no sertão
Atrás de algum dinheiro
Ou de um cabra valentão
O dinheiro ele pedia
Mas se o cabra resistia
Silvino entrava em ação

Silvino fez muitas coisas
Ajudando a classe pobre
Ele tomava do rico
Que era metido a nobre
E dava uma "coisinha"
Ao pobre que não tinha
Uma moeda de cobre

Silvino sempre vivia
Andando pelo sertão
Em busca de aventuras
Com o seu rifle na mão
Fazendo suas caçadas
Numa dessas caminhadas
Ele avistou Lampião

Lampião vendo Silvino
O pé atrás afastou
Perguntou: - Quem é você?
E Silvino lhe respostou:
- Eu sou Antônio Silvino
E você, cabra mofino
Quem é? Quem foi que mandou?

Lampião disse: - Silvino
Ninguém não mandou em nada
Cuidado com sua língua
Que ela pode ser cortada
Porque mofino eu não sou
E como a hora chegou
Vamos dá uma brigada

Silvino lhe perguntou:
- Qual foi o mal que lhe fiz
Pra você querer brigar?
Porém Lampião lhe diz:
- Você me chamou de mofino
Sou Lampião, Virgulino
E vou matá-lo, infeliz

Lampião mandou um soco
Bem na cara de Silvino
Dizendo pra ele: - Eu sinto
Orgulho de ser nordestino
Vamos entrar na brigada
No soco e na cabeçada
Se não souber, eu ensino

Silvino disse: - Sujeito
Vamos entrar em ação
Comigo a coisa é preta
Porque é Sim ou é Não
Pra lutar sou preparado
E deu um soco bem dado
Que derrubou Lampião

Lampião disse consigo:
- Este sujeito é valente
De um salto levantou-se
De raiva rangindo o dente
E por ser bom nordestino
Agarrou-se com Silvino
Como um cachorro doente

Mas Silvino era ligeiro
E empurrou Lampião
Que ele saiu aos tombos
Silvino entrou em ação
Mas Lampião revoltou-se
E com Silvino agarrou-se
Quase lhe bota no chão

E no grande ruge ruge
Um por cima outro por baixo
Embolaram pelo chão
Quase o mundo vem abaixo
Ainda ficou escuro
Lampião disse: - Eu sou duro
Silvino disse: - Eu sou macho

Mas Lampião levantou-se
E foi dizendo a Silvino
- Comigo a parada é dura
Você pra mim, é mofino
Silvino gritou zangado:
- Hoje aqui dá tudo errado
Tenha cuidado, menino

Lampião manifestou-se
Mandou-lhe um soco bem dado
Silvino caiu no chão
De cabelo arrepiado
Mas logo deu com ação
Um pontapé em Lampião
Que ele caiu sentado

Silvino mais que depressa
Agarrou-se com Lampião
Por cima de pedra e toco
Esfregou ele no chão
Disse: - Cabra, conheça
Qu'eu sou bom, não se esqueça
E na luta sou campeão

Mas Silvino descuidou-se
Lampião meteu-lhe o pé
Dizendo: - Eu sou macho todo
Vamos vê Deus por quem é
Silvino disse: - Eu lhe expulso
Lampião caiu debruço
Igualmente um jacaré

Silvino lhe disse: - Agora
Vai mudar a posição
Montou-se nas costas dele
Batendo de pé e mão
Em cima dele escanchado
Andou três léguas, montado
Nas costas de Lampião

Lampião esperneou
Porém Silvino agarrado
Deu-lhe bofete na nuca
Que ele ficou inchado
Mas Lampião criou ira
E quando o corpo revira
Silvino viu-se apertado

Lampião deu-lhe um bofete
Que Silvino desmaiou
Mas Lampião não matou-o
Que ele tornasse,esperou
Quando Silvino acordou-se
Lampião aproximou-se
E pra ele, assim falou:

- Silvino,eu já conheci
Que você não me fez mal
Faz até pena eu matá-lo
Na. luta a gente é igual
Você é macho, eu sou macho
Pensando bem eu não acho
Que possa fazer-lhe o mal

Mas Silvino respondeu-lhe:
- Você é um cabra chato
Quando entro numa luta
Resolvo tudo no ato
O beco não tem saída
A questão está decidida
Se não matar-me, eu lhe mato

Lampião disse: - Silvino
Você caiu desmaiado
E também bateu em mim
Fiquei de pescoço inchado
E ainda está doendo
Mas é bom ficar sabendo
Que o meu braço é pesado

- Você tem o seu valor
Eu também não fico atrás
Você é bom lutador
E eu luto menos ou mais
Se eu matar de sangue quente
Um homem assim tão valente
Vou perder o meu cartaz

Ao invés de matá-lo
Eu mato um fazendeiro
Que vive passando bem
E não quer me dá dinheiro
Você bateu no meu rosto
Mas eu não estou disposto
A matar meu companheiro.

Lampião se aproximou
Para apertar sua mão
Antônio Silvino deu logo
Um abraço em Lampião
E no bar duma sertaneja
Eles foram tomar cerveja
Na mais perfeita união

Antonio Silvino era
Como ele, nordestino
Reconhecendo a coragem
E a força de Virgulino
Eu descrevi sem massada
O encontro e a brigada
De Lampião com Silvino.

 

 

Fonte:
Cordel: O ENCONTRO DE LAMPIÃO COM ANTÔNIO SILVINO
Autor: José Costa Leite
Editora Coqueiro

 

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