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José Carlos Targino
(1943 Vitória de Santo Antão/Pernambuco)

 

 


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O ENTE AMADO DE EMILIANO

Teu cavalo morto
Renascerá principalmente
Com o verão nas árvores

E não estarás oculto
Como um salteador de estradas,
Ou um solitário irredimível.

Teu cavalo morto
Renascerá após a agonia dos bois
Nos currais ensolarados

E saberás distinguir
Essas questões difíceis que propõem
A qualquer homem vivo.

Teu cavalo morto
Renascerá à semelhança de um deus
Deslumbrante e amoroso.

Envelhecerás sozinho e triste
Até que o ar sufoque os corvos e os livros,
Comprimindo a cruz ao sol.

Teu cavalo morto
Renascerá como nunca pensaste,
E logo ficarás tranqüilo.

(1968)

 

TENTAÇÃO NA ALDEIA

Senhor, eis o teu servo.
Na noite calma,
Invisíveis as laranjeiras no pomar,
Ele guarnece os flancos de tua fortaleza.
E vasto é o ermo
Em que perduram a traição e o frio,
Pacto débil sob as estrelas reunidas.

Senhor, eis o teu servo.
Onde os demônios confabulam,
As máquinas livres pelo tempo em desordem,
Ele oferta camélias às cortes inimigas.
E se é chegado o fim
De tudo quanto puro amor reflete,
Uma luz plena declina sobre seu corpo.

(1968)

 

CANTO DA CAROCHINHA

A Stella Virgínia Telles

Era uma vez dois amantes,
há muito tempo. Sem lua,
sem chuva ou vento arrogante
que os açoitassem na rua.

Ela era toda brilhante,
até no escuro acendia.
Ele exultava cantante
para sua flor que se abria.

E tanto ardiam flamantes
que nem cuidavam do lar,
como andorinhas errantes
que migram perto do mar.

Ó seres lassos, minguantes,
trapos na noite tombada,
desatem mais adiante
o nó da luz arruinada:

quem amou quem mais galante
antes que as armas lhe abrissem
a carne doce da fronte,
e os assassinos sumissem?

Quem veio aqui murmurante,
saiu à tona num mundo
que é sempre assim, vacilante,
desde o Éden álgido e fundo.

Era uma vez dois amantes
que se perderam: e a lua,
a chuva e o vento arrogante
os açoitaram na rua.

(1985)

 

RETRATO DE UMA DAMA À DERIVA

Amor, amor, que te vais
Tão longe de mim, que te quis

No oculto vão desses ais
Algo sem sol mas sutis.

Malícia, raiva e desdém
Se aliam contra quem te ama.

Amor, amor, me convém
Te amar oblíquo e sem cama?

Onde é que estás, que não vens?
Silêncio, e adeus, minha dama.

(1991)

 

 

Fonte:
Cadernos de Poesia
Série Geração 65 nº 08
1997
Recife - FUNDARPE

 

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