página inicial | galeria dos mortais | joca de oliveira
VOLTAR À PÁGINA INICIAL

 

JOCA DE OLIVEIRA

 

ABISSAL

Não sou peixe de superfície, de águas claras.
Peixes brilhantes, quase à luz do sol.
Peixes de escamas, de luz espalhada,
de cor espelhada, como óculos modernos.

Não sou peixe que pula à tona, à toa,
soltando gritinhos pros barcos que passam,
pros transatlânticos imunes.

Sou peixe que mergulha fundo,
pros territórios abissais,
pro escuro da pressão deformante.

Sou peixe feio, sozinho,
nas lacunas dos infernos marítimos,
de subvoadores.

Sou peixe amorfo, nu,
sem cor definida, vago,
na profunda imensidão do mar,
onde me perco: eterno infinito.

Rochas e sombras.
Algas obtusas, cavalos daninhos,
ostras crocantes
e tubarões de olhos grandes e assassinos.

Sou peixe enterrado nas esferas do habitat maior,
onde a sobrevivência causa pânico,
até aos pescadores.

Sou peixe magro, de barriga grande
e de visão presa, dura, no perigo.

Sou peixe inquilino da vida,
do grande sonho de viver.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

João José de Oliveira, filho de José Sebastião de Oliveira e Amara Duarte de Oliveira, nasceu a 23 de junho de 1956, em Ribeirão, Estado de Pernambuco. Aos quinze anos, completou seu curso ginasial no antigo internato do Ginásio Agrícola de Escada, no município de Escada - PE. Depois, foi para Barreiros – PE, também em regime de internato, cursar o Técnico Agrícola, no Colégio Agrícola João Coimbra, de onde só sairia em 1974. Até então, a poesia não fazia parte de sua vida. Guardava alguma lembrança dos cordéis que seu pai trazia da feira, na infância. Mas, na adolescência, gostava de ler romances e ensaiava textos em prosa. A formação de Técnico em Agricultura lhe causava insatisfação. Sempre preferiu as Letras. Dos estrangeiros, lia, principalmente, Hemingway, Dostoiévski, Voltaire, Melville e Stendhal. E, dos nossos, Érico Veríssimo e Jorge Amado. Dos poetas, os mais conhecidos, Drummond, Bandeira e Gullar. Com o término do período dos internatos e a transitória volta à casa dos pais, Joca de Oliveira, como é conhecido, passou a ter um contato mais próximo com um talentoso poeta de sua rua: Antônio Olívio Ramos. A proximidade com o amigo e vizinho foi o que introduziu o autor no mundo da poesia e de onde ele nunca mais saiu. Em 1975, seguiu para Recife e tentou vestibular para Medicina, não sendo feliz no resultado. Entre 1976 e 1977, cursou Administração de Empresas na Unicap. Nesses dois anos, surgiram os primeiros versos nas mesas de bares, e a boêmia era muito mais divertida do que o estudo. Na época, morava numa pensão da rua Nunes Machado. Juntou-se à solidão daquela rua a companhia de sua alma desarvorada de rapaz interiorano, meio perdido na metrópole, e não houve ambiente melhor para o desenvolvimento intelectual de um poeta introspectivo, triste, com tendência pessimista, mas com um conteúdo humanístico e social fortíssimo, aguçado pelas primeiras experiências numa cidade grande e pelo choque de sair de uma vida quase monástica do internato para o turbilhão de sentimentos jogados diuturnamente em sua vida pela paisagem recifense. Em 1978, abandonou o curso na UNICAP e começou a trabalhar. Retornou a Ribeirão tempos depois, enfrentando alguns altos e baixos por conta da irresponsabilidade boêmia. Em 1981, retornou à capital, com muito apoio e pouco dinheiro; dessa vez entrando no curso de Direito da UFPE. Foi morar na CEU - Casa do Estudante Universitário, cuja diversidade cultural do ambiente se tornou palco propício para a divulgação dos seus poemas e escritos em prosa. Conheceu e tornou-se amigo dos poetas Xico Sá, Wilson Vieira, Klébio Coelho e Manoel da Rocha, assim como foi também contemporâneo dos músicos Antônio Reinivaldo (o Crente), Walmar (já falecido) e do pessoal de Comunicação: Wandeck Souza Santiago e Cícero Tavares de Melo, o Chiquinho Olem. Tornou-se amigo e, logo depois, compadre de Roque Braz, parceiro em músicas e poesias.
No decorrer desse tempo, Joca de Oliveira participou de vários jornais alternativos: Palco Aberto, Bandejão, Caos, Balaio de Gato, Proesicanteatroz, e da primeira versão do Poesia Descalça, com Manoel da Rocha; contudo, hoje, mantém o jornal ao lado do físico-poeta, José Wilson Vieira. Publicou dois livros: Os últimos pássaros da cidade e Para além do peito tatuado. Participou das coletâneas: Poetas Brasileiros de Hoje – 1985, da editora Shogun e do Marginal Recife II, organizado pela Prefeitura da Cidade do Recife. Atualmente, o poeta mora na Caxangá, no bairro da Iputinga, em Recife.

 

música: The Long and Winding Road (The Beatles)

foto: Sennor Ramos

 

   
voltar à página inicial
INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos