| QUARTO DE PENSÃO,
NA RUA NUNES MACHADO
Naquelas paredes, minhas palavras ficaram coladas.
Se você colocar seus ouvidos nelas,
Ainda escutará ecos dos passos na escada de madeira,
Ecos do deslizar de mãos nos corrimões,
Ecos dos chiados de ratos,
Do giz no quadro verde.
Duas ou três vezes, insone na noite,
Eu descia a escada e olhava a rua.
Tudo apagado.
Depois das aulas, a rua era esquisita, nua, intrigante.
Rua tão solitária quanto eu.
Eu ficava, então, a digerir sombras e a mim mesmo.
A frieza era de espantar na madrugada.
Os fantasmas, nessas horas, davam gargalhadas
Que me assustavam;
Mas, em algumas noites, ficavam calados,
Soturnos, como corujas,
Respeitando a minha solidão.
ESTATÍSTICA
A vida é muito sutil:
Na favela Mata-Sete,
Sobrevivem mil!
KARMA
Que dias sombrios!
Que campo de amarguras tenho estado!
A alma anda tão atormentada
Que nela brigam mais de mil soldados
Não é preciso nem vagar no frio
Nem ter os seus pertences confiscados
A sorte que me vem, vem mais de longe
De mundos que conhecem meus pecados
Que trama é essa toda original
De a alma sentir culpa sem sentido
Do campo de ação já demarcado?
Há em mim motivo pr'eu ser imolado?
Se a vida for a prova para os vivos
De cruz eu viverei, mas consternado.
MEU POEMA DE INVERNO
Vi sozinho pela TV os jogos europeus no inverno
passado
Após o banho a toalha permanecia molhada
Horas e horas
Suas fitas de vídeo serviram de morada pras formigas
Decerto não gostaram do meu quarto frio e sujo
Uma cigarra invadiu minha sala e namorou uma lâmpada
Minha vassoura quis expulsá-la mas ela voou antes e me perdoou
O noticiário informou que o lixo espacial invadiu a órbita
do planeta
Fui ao BINA e ele estava cheio de credores: nenhum sinal de você
Não fui feliz no inverno
Quase nem cheguei à janela
Mas o Sol está vindo aos poucos visitar a praia
Só ontem é que vi o mar: o melhor guia pra recomeçar
Uma dúzia de meninos de rua cercou um gringo fotógrafo
Ele passou por um canteiro de bundas mulatas
E foi fotografar uma arraia gigante
Voltei pra casa e no BINA mais credores e nenhum sinal de você
Eu continuei fechado no apartamento
Meu poema de inverno estava sobre a mesa
Havia a lata de leite e um pacote de bolachas
Além de uma fotografia de Catherine Deneuve
A revista CULT e dois livros de poetas novos
Na manhã de hoje, eu permaneci ali, semimorto,
E o verão começava a se abrir.
O Sol pincelava, na moldura da porta,
A sua silhueta de mulher.
NORDESTE
Tão seco de heróis vivos
Tão vivo de heróis secos...
O DESPENCAR DA LUA
Declina-se a Lua...
Há bares cheios e vazio em mim.
Há burguesas perfumadas e suor no meu corpo.
Há presença nas ruas e confinamento em meu quarto.
Há dinheiro nos bolsos e minha carteira vazia atirada
Num canto do quarto.
Há risos brotando e amargor em meu peito.
Há calcinhas retiradas e eu nu e só.
Há crianças dormindo e a minha insônia querendo conversar.
Há namorados nas praças e meus olhos namorando as estrelas.
Há deuses no infinito e um mortal limitando-se.
Há guardas trabalhando e eu parado na janela.
Há prostitutas enfrentando a vida; eu, cheio de temores.
Há um mundo em crise e eu perdido no tempo.
Despenca-se a Lua...
Os bares já estão vazios e meu vazio
aumentou.
As burguesas já se foram, o meu suor esfriou.
As ruas estão desertas e meu quarto não se abriu.
Houve gastos, houve farras, e eu não fui trabalhar.
Os risos escoaram-se e o meu peito é só silêncio.
Mulheres saciadas, meus olhos rasos d'água.
As crianças continuam a dormir; eu, a procurar soníferos.
Os namorados já se foram, as estrelas também.
Os deuses estão mortos e este mortal ainda vive.
Os guardas voltam para seus lares, e eu parado na janela.
Há prostitutas consumidas; quem consumirá meus temores?
O mundo continua em crise, apesar deste sol radiante.
TEMPO DE FANTASIAS
Para Helena Ortiz
Tempo de encobrir;
Tempo de mortalhas:
"Pro quarto, já, já.
A conversa é pra adulto!"
Infância vaga,
História paga,
Memórias apagadas;
Tempo de flores sobre dores
E, ainda assim,
Tempo de fantasias:
Do bicho-papão
Do papa-figo
Do lobisomem
Da cumade fulôzinha.
Garrafa e meia, jornais velhos e revistas,
Gritava um velho maltrapilho
Conduzindo um carro de mão
Feito de madeira.
Papai nos assustava dizendo que era o
Bicho-papão que levava as criancinhas.
Naquela época, havia um outro bicho-papão
Que papai nunca me falou.
Esse era de verdade;
E até hoje se procura gente
Que o bicho levou. |