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Joaquim Cardozo
(1897 Recife/Pernambuco - 1978 Olinda/Pernambuco)

 

 


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RECORDAÇÕES DE TRAMATAIA

I

Eu vi nascer as luas fictícias
Que fazem surgir no espaço a curva das marés
Garças brancas voavam sobre os altos mangues
De Tramataia.
Bandos de jandaias passavam sobre os coqueiros doidos
De Tramataia.
E havia um desejo de gente na casa de farinha e nos [mocambos vazios
De Tramataia.
Todavia! Todavia!
Eu gostava de olhar as nuvens grandes, brancas e [sólidas,
Eu tinha o encanto esportivo de nadar e de dormir.

II

Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente
Neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda ao [nascer do verão
E a saudade de Josefa,
A pequena namorada do meu amigo de Tramataia.

 

RECIFE DE OUTUBRO

Ó cidade noturna!
Velha, triste, fantástica cidade!
Desta humilde trapeira sem flores, sem poesia,
Alongo a vista sobre as águas,
Sobre os telhados.
Luzes das pontes e dos cais
Refletindo em colunas sobre o rio
Dão a impressão de uma catedral imersa,
Imensa, deslumbrante, encantada,
Onde, ao esplendor das noites velhas,
Quando a noite está dormindo,
Quando as ruas estão desertas,
Quando, lento, um luar transviado envolve o casario,
As almas dos heróis antigos vão rezar.

Sinto no meu sangue a carícia da noite. . .

No silêncio as horas morreram;
E ao saimento
Das horas mortas
Um sino toca.

Caminho a passo lento.
Creio que alguém me espia do alto, das cornijas.
Vai passando na sombra a ronda dos meus sonhos.

Toda a cidade, eu vejo, está transfigurada:
É um campo desolado, negro, enorme,
Onde rasteja ainda
O último rumor de uma batalha
E a massa negra dos edifícios,
As torres agudas recortando o azul sombrio,
Cadáveres revoltos, remexidos,
Com os braços mutilados
Erguidos para o céu.
Ó minha triste e materna e noturna cidade
Reflete na minha alma rude e amargurada
O teu fervor católico, o teu destino, o teu heroísmo.

 

CHUVA DE CAJU

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e [mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Por que eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.

 

O MEU CANTO É DE SOL

O meu canto é de sol. . .
É de verão florindo
Os jardins tropicais:
De túnicas vermelhas
Flamboyants cardeais!

O meu canto é de sol. . .
É de manhã nascente
Em profuso verão:
- Púrpuras de jambeiros
Atiradas no chão!

É de sol, é de sal
Desse mar nordestino
Suas cores abrindo
Como um pavão!

O meu canto é de sol!

 

CANTO DO HOMEM MARCADO

Sou um homem marcado. . .
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Sou marinheiro
Desembarcado;
Marcho na bruma das madrugadas;
Mas -
Trago das águas
A substância
Da claridade
DA CLARIDADE!
Sou o indefinido,
O inesperado
Viajante da tarde nua,
Que uma dor augusta comoveu. . .
Tudo a renuncia,
Tudo
O que eu conservo
De altivo e puro,
Sob o meu manto adormeceu.
Em outros tempos e antigos
Plantei alfaces, vendi craveiros,
Fui hortelão, fui jardineiro;
E a escura terra. . .
Terra
Dos meus canteiros,
Sempre arqueava o dorso
Ao gesto amigo
De minha mão.
Hoje provo, na boca, um desgosto,
Hoje tenho, no sangue, um sinal
Que não foi e não é das algemas
Da prisão da Vida,
Nem do jugo da Terra,
Nem do pecado original.
Muito bem sei, senhores,
Que sou um sonho cravado na morte,
Que sou um homem ferido no olhar. . .
E que trago, bem viva, entre as nódoas do mundo,
A mancha do meu país natal.
Sou um homem manchado de sombra
No sonho, no sangue, no olhar,
Sou um homem marcado. . .
Em país ocupado
Pelo estrangeiro.
Mas esta marca temerária
Entre a cinza das estrelas
Há de um dia se apagar!
Por isso é que me amparo às mãos dispersas da noite. . .
E pelos pés difusos do vento é que marcho
Na bruma das madrugadas. . .
Trazendo das águas a substância
Da claridade
E um cheiro manso
De manhã fria. . .
Oh! Soledade!
Oh! Harmonia!

 

ELEGIA PARA MARIA ALVES

Trago-te aqui estas flores
- Filhas que são, modestas, de um sol de outubro -
São flores das velhas cercas, flores de espinheiros,
São verbenas e perpétuas, bogaris e resedás;
Têm as cores do céu nos crepúsculos longínquos
E a transparência e a limpidez das tardes em que sonharam moças
Nos mirantes de antigos jardins dos arrabaldes.

As frutas que deposito no chão, no teu chão, dentro desta folha de aninga. . .
- Filhas, também, de um sol que tu não viste -
São araçás silvestres, cajás de cercas nativas,
Pitangas, maçarandubas, corações-de-rainha;
São vermelhas, são cheirosas e amarelas
Como se fossem. . . como se flores ainda. . .

As terras que espalho sobre o terreno do teu corpo vazio
- De muito distante vieram -
São areias do Rio Doce e da Piedade
Barros vermelhos das ribanceiras do Mar
Argilas das "Ruínas de Palmira" com as suas cores
De arco-íris naufragado entre os morros de Olinda.

Assim, Maria, trago-te flores, frutas e terras. . .
E para que se conservem sempre frescas e puras
Sobre elas derramo estas águas
Que são doces e claras, que são mansas e amigas:
Água da Levada de Apipucos
Água da Bica do Rosário
- Relíquias de chuvas antigas -
Águas por mim, por ti, por todos nós choradas.

 

O SALTO TRIPARTIDO

Havia um arco projetado no solo
Para ser recomposto em três curvas aéreas,
Havia um vôo abandonado no chão
À espera das asas de um pássaro;

Havia três pontos incertos na pista
Que seriam contactos de pés instantâneos.
Três jatos de fonte, contudo, ainda secos,
Três impulsos plantados querendo nascer.

Era tudo assim expectativo e plano
Tudo além somente perspectivo e inerte;
Quando Ademar Ferreira, com perfeição olímpica,
Executou, em relevo, o mais alto,
- Em notas de arpejo
- Em ritmo iâmbico
O tripartido salto.

 

O CEGO

Vais pela tarde a treva conduzindo
O rosto erguido às luzes desfolhadas,
Fitando sóis escuros, pressentindo
Louca visões de luas flageladas.

Não tens para os teus olhos ressurgindo
Grandeza de emoções iluminadas:
Não sabes onde pára o solo infindo
das secas ilusões desamparadas.

Mas nesse ermo de noites infelizes
Mais profundas que a noite das raízes
Hás de, constante, ouvir teu coração,

Como a voz do mais límpido presságio
Sobre o grito maior desse naufrágio,
Como um sino a chamar na solidão.

 

NOSSA SENHORA DAS GRAÇAS

Sei que havia uma ponte sobre o rio
E um cheiro de jasmins pelo caminho
Mas o rio era todo. . . Era sombrio
Nas maduras manhãs de sol. Carinho

De brisas matutinas, fugidio.
Do altar de Vossas Graças me avizinho,
Senhora do Alto Dom e do erradio
Semear/distribuir de pão e vinho.

Pelo pão, pelo vinho, que um milagre
Me fez surgir da esponja e do vinagre
Sinto que em Vossa luz resplandecia

Quando o meu sopro veio sobre o mundo
Já se alargara em círculo profundo
Do Vosso grande amor a ventania.

 

 

Fonte:
Poemas enviados por Everardo Norões

 

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