TUDO
QUANTO EU SOFRER NA MINHA VIDA
SÓ ME QUEIXO DA TUA INGRATIDÃO
Eu pensei que tu eras inocente
Como a Virgem quando foi anunciada
Por mim mesmo tu foste comparada
Com a estrela Dalva refulgente
Que guiou os três reis do Oriente
A visita do Pai da Criação
Mas agora provaste a revelação
Que tiveste comigo foi perdido
Tudo quanto eu sofrer na minha vida
Só me queixo da tua ingratidão.
Tu de falsa roubaste o meu amor
Tu não tens coração mulher ingrata
Teu fingir cada vez mais me maltrata
Mais eu sofro, mais gemo, tenho dor
Se ao menos não fosse um cantador
Não conhecesse saudade nem paixão
Pois quem é desprezado sem razão
Perde até o direito da dormida
Tudo quanto eu sofrer na minha vida
Só me queixo da tua ingratidão.
Ilusões, sonhos, quimeras, amores,
tudo tive na minha mocidade,
mas o tempo na sua tempestade
faz dos dias o que faz com as flores.
Fiz das horas os meus elevadores,
pra subir a montanha da idade,
de cujo cimo fitando a imensidade,
eu pensava viver com os condores.
Nessa triste ascensão de amargas horas
vi crepúsculos ao invés de ver auroras,
à velhice cheguei aos solavancos.
Nem mais vestígios das primeiras cenas,
por lembrança de tudo herdei apenas
branca coroa de cabelos brancos
PASSA TUDO NA VIDA, TUDO
PASSA,
MAS NEM TUDO QUE PASSA A GENTE ESQUECE
Passa o dia por mês e mês
por ano
Passa ano por era, era por fase
Nessa fase tão triste eu vejo a base
Do destino passar de plano em plano
Com a mão da saudade o desengano
Passa dando um adeus fazendo um S
Vem a mágoa o prazer desaparece
Quando chega a velhice, foge a graça,
Passa tudo na vida, tudo passa,
Mas nem tudo que passa a gente esquece.
Menosprezar a velhice
Hoje aqui não adianta
Olhe aí Manuel Bandeira
Um velho de idéia santa
Eu canto e não sou poeta
Ele é poeta e não canta.
Mote:
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas
Na madrugada esquisita
O pescador se aproveita
Vendo a praia como se enfeita
Vendo o mar como se agita
Hora calmo hora se irrita
Como panteras ou pumas
Depois se desfaz em brumas
Por sobre as duras quebranças
Frágeis, fragílimas danças
De leves flocos de espumas.
No tempo da juventude
Ninguém gozou como eu
Mas depois dos vinte anos
A viola apareceu
Esta penitenciária
Que o tempo em troco me deu. |