Revelação
Estar contigo
É trancar-me
numa cela de prismas
E descompor-me
Ao teu olhar
É ter mais cor.
Carnavale
Vale de carne
Tostando ao sol
A mercê
de qualquer boca.
Sobre Homens e Ampulhetas
"No se detiene nunca la caida
Yo me desangro, no el cristal. El rito
de decantar la arena es infinito
y con la arena se nos va la vida."
Jorge Luis Borges
Como terrena
não destôo
do rigor
da gravidade.
Me entrego
humildemente
pouco a pouco
Sem pretensões
sem heresia
seguindo a lei.
Sem vaidades
desmistifico
a transcendência
de ter alma.
A lucidez
de ser perene
meu envoltório
me resgata
ao chão
sem ilusões
de reviravoltas.
Deixo aos místicos
o afã da
eternidade
E à ampulheta
o incansável
labor
de resgatar o pó
ao solo.
Análise
O prazer em nós
é frágil como os segundos
fugazes, assim, vivendo-os
e na abstração se encontram
avultados em forma de hora.
Sem título
...todo dia Amélia salta sua constância
no ímpeto que até a mais vil coisa tem de aspirar
nem que seja fragmentos diminutos do indizível
vai ela remexendo o impalpável
sacudindo grãos no espaço
pra semear uma ilusão qualquer
no turbilhão desse pó mágico
sobe terra, cimento, micro-vidas
na atmosfera, congregados: um castelo!
Vem as horas, o marido, a gravidade
velhos hábitos: a comida, a novela
ficam os pratos, a poeira, a ilusão
suspensos, se acumulam pro amanha...
Exercício de inutilidade
Quantas folhas rabiscadas
É o domínio da inutilidade
A tinta escorre, coitada
Abortando ao suministro de papel
Melhor que se poupasse.
Mas essa víbora te obriga
-Cospe vagabunda!
Quero ver almas nessa sala. |