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Janice Japiassu
(1939 Monteiro/Paraíba)

 

 


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CANTIGA DE RODA

Essa rua não tem bosque
mas se chama solidão
esse bosque não tem anjo
mas roubou meu coração

o bosque não é meu bosque
e eu não sei roubar ninguém
esse bosque não tem anjo
e o anjo não me quer bem

se essa rua não tem bosque
eu vou morar dentro dele
se não tem anjo eu invento
depois me caso com ele.

 

A MENINA E SUA CASA

Aos cinco anos eu tinha
um corredor pra morar
com uma porta pra rua
e outra porta pro mar

corri pra porta da rua
com medo de me afogar
o medo fechou-me a porta
voltei pra porta do mar

o mar secara e eu não tinha
nada com que me banhar
corri pra porta da rua
atrás da porta do mar

desde então sou dois pedaços
um com medo da amargura
o outro com medo do amor
e nessa guerra inda escuto
minha sombra de menina
sentada no corredor.

 

NASCE UMA LENDA

Meu amor virou uma lenda
em sua casa de relva
cada sol, ele se esconde
cada lua se revela

antigos pássaros contam
que muito me tem amado
sem nunca me ter de perto
num grande sonho fechado

meu povo virou um canto
do povo dos passarinhos
passeia pelo meu sangue
embriagado de vinho

meu amor virou uma lenda
eu virei lenda também
de nós já nada sabemos
mas todos sabem além.

 

 

Fonte:
ESTAÇÃO RECIFE
Coletânea Poética 1
2003
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
ORGANIZADORES: Everardo Norões - José Carlos Targino - Pedro Américo de Farias

 

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