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Jacineide Travassos
(Carpina/Pernambuco)

 

 


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PRETENSA RENÚNCIA AO POEMA BARROCO

Sabendo-te pérola
mergulhara no mar
perdendo o fôlego
adentrara tua concha
imersa em nuvens

Sabendo-te pérola
quisera-te tal qual o homem esférico
de Platão
sabedor da origem
dos fins do homem

Sabendo-te pérola
quisera-te também frágil
nascido das águas
ou da lua
da queda do orvalho
sobre a concha
era-me a ti

Sabendo-te pérola
quisera renunciar ao Poema Barroco
para não te saber pérola irregular
mas ainda pérola
e render-me a tua beleza translúcida
ao teu jogo de luz e sombra
aos teus movimentos em torno do nada
à embriaguez do teu Deus solene
ao tátil do teu abraço metafísico
a tua pungente alegria de estar sempre triste

Sabendo-te barroco
cintila nos olhos a pérola magoada
a triste alegria de saber-me
eternamente concha

 

VENERIS DIES

os ventos sopram chuva branca
pombas em vôo sólido navios de pedra
sonorizam o silêncio vítreo das horas
brumas brunem a tarde sépia
asas de borboletas quedas da aurora
as folhas rugem eloqüência de mar exilado em Chipre
amor
chuva dos olhos em ilha

 

MATRIS DIES

címbalos soam a palavra
Sangarida
sopra terral no ostensório do meu nome
teu nome
pedra
recifes à flor das águas
cinge aves do mar e peixes
amotinando-os ao verbo magro dos viajantes
Sangarida
tuas veias marítimas sangram o signo
habitam-me o ventre
ressuscitam sereias nas siremusas
anunciam o sal
não só vermelho cor da tarde
Sangarida Sangarida
o sangue principia novo nome

 

 

Fonte:
Invenção Recife: Coletânea Poética I
2004
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura/ Fundação de Cultura Cidade do Recife
Organizadores: Delmo Montenegro e Pietro Wagner

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos