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Jaci Bezerra
(1944 Murici/Alagoas)

 

 


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LINHA D'ÁGUA

Em Alagoas me achei, achando o mar,
desde então o conservo em mim, aberto,

porém nunca aprendi a soletrar
a insone cadência dos seus metros.

Talvez porque o mar, nervoso e inquieto,
no pacífico silêncio onde Deus viça,

não escreve nem repete o mesmo verso
no seu caderno de águas movediças.

Achando o mar me fiz cúmplice da beleza,
mas ao me consumir em suas chamas

soube que a alma é uma onda de incerteza
presa na cela da nossa areia humana.

Aprendi com o mar a ser constante
e a aceitar, sem pudor, as coisas frágeis:

a fazer da inconstância dos instantes
lembranças o mais possível perduráveis.

Entregue ao mar, pago ao mar o meu tributo,
e ao escutá-Io na minha humana cela,

sinto que o mar, fremindo longe e oculto,
me conta coisas que a ninguém revela.

 

NO SONHO A MÃO DE ALGUÉM ME APÓIA E GUIA

O pai tinha um cavalo luminoso
e cuidava das rosas do jardim,
porém seu coração não tinha pouso
e, por isso, ele foi um homem assim,
calado e só, talvez misterioso,
mesmo ao bordar estórias para mim.
Dele herdei o silêncio em que me movo
e os meus pastos de antúrio e de capim.
Ao recordá-lo, inteiro me enterneço.
O pai é a minha infância aurorescendo
nesses currais de luz onde adormeço.
Mito que me acompanha tempo afora,
O pai é uma canção esmaecendo
no atormentado sótão da memória.

 

INTERPRETAÇÃO DE EDSON NERY DA FONSECA

Em qualquer livro
fala o que no homem é alma.

A edição não importa,
no livro o que importa

é a alma nele impressa
e que, íntima e sem pressa,
entre a sombra e a réstia,
ao abrir as janelas
toda inteira se entrega

a outra alma, e conversa
devagar e sem pressa.

Um livro, qualquer livro,
mais que o homem, é vivo.

Objeto mais forte
do que o tempo e a morte.

Coração do que foi,
é o ontem e o depois

batendo, delicados,
seja aberto ou fechado.

Onde quer que se ponha,
um livro pensa e sonha.

 

ÁRIA PARA SOPRO E VIOLONCELO

a Antonio Salles Filho, O.S.B.

Hóspedes apenas
de Deus na terra
eis o que somos.

Frágeis cerâmicas,
sombras inúteis
do que sonhamos.

O tempo nunca
se move e passa
como supomos.

Parte do tempo
enquanto vivos
só nós passamos.

Sem bem saber
nessa passagem
porque nos vamos.

Toda existência
é um ato único
de despedida.

 

A CASA NO INTERIOR DA CASA

Uma casa feita de invenções e espantos:
O violão fora do estojo, pousado na luz,
As cordas fremindo de amarelos e azuis.
E na janela, debruçado, um flamboyant sangrando
À espera do verão que o transforme em nuvem ou pássaro.
Uma casa doendo, toda feita de verbo e música,
impregnando a carne e a alma de nostalgia e tempo:
mais extensa que a vida, bem menor que a lembrança,
triste e pesada como a solidão nos olhos dos mortos.
Uma casa de invenções e espantos, linguagem e som
e entre suas paredes, amanhecendo e cantando,
outra casa que o homem, embora tente, não consegue alcançar.

 

 

Fontes:

Estação Recife
Coletânea Poética I
Recife - 2003
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura - Fundação de Cultura da Cidade do Recife
Organizadores: Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias

Linha d'água
Jaci Bezerra
Companhia Editora de Pernambuco - 2007

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos