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J. Antônio D’Ávila
(1917 Petrolina/Pernambuco - início dos anos 90 Rio de Janeiro)

 

 


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BALLET

O corpo
pincel no ar
lápis
no tempo frágil
giz de músculos
desenha
o que jamais se desenha.
Ali.
Somente ali
onde passa o corpo frágil
é o mundo.
Só ali onde reparas.
Todos os demais espaços do mundo -

... aparas!

 

MACUNAIMADO

O corpo de Anamaíra
é comida de sustança.
É carne, é peixe, é fruta.
Juro que é.
Minha fome vai ficar só na lembrança.
Vou comer Anamaíra, todinha.
Eita festa, eita lambança!

O corpo de Anamaíra -
mangaba-manga,
araçá-pitanga, pitangaraçá,
pitu, tucunaré,
pirabiju, bijupirá,
casquinha de mussuã,
fruta-pão,
tracajá,
jerimum, aipim, macaxeira,
jenipapo, no papo!
Tudinho pra mim.
Vou comer o corpo de Anamaíra
de mansinho.
Dos seios-mãe (gentil pátria amada brasil),
dos seios moles, macios,
dos suaves seios de Anamaíra,
vou fazer pão quentinho.
E daí, sabe,
daí eu me macunaímo,
me encanto todinho
e vou comer pão-de-leite Anamaíra, escondido,
olhando pro mundo lá de cima da folhagem verde de seus cabelos.

bem no meu.
Quando alguém perguntar:
- Cadê a Anamaíra que tava aqui?
Respondo imitando sagüim
- A Anamaíra que tava aqui?
O poeta comeu, o poeta é saci.

                                        Foi assim que aconteceu.

 

BILHETE A MARIA HELENA

Minha filha,
a poesia foi para mim um pássaro sempre a fugir
deixando-me ver apenas à distancia o colorido de suas                                                                   [penas
a beleza estranha do seu canto.
Às vezes perto de mim, outras, tão distante.
A perfeição poética foi inatingível.
Durante anos guardei os meus poemas imperfeitos.
Neles faltam algo que não tive força para criar.

                 Pássaro fugindo numa floresta encantada.
                 Cantando e fugindo, assim minha poesia,
                 minha poesia perdida.

 

CANTO SEGUNDO

Rio São Francisco

Canto meu rio
e o rio canta.
Dos poetas e dos rios
o destino é cantar
até que chegue a morte
até que chegue o mar!

Canta meu São Francisco
cantigas antigas
nascidas nas lonjuras do seu largo caminhar.
Hinos de correnteza!
Ladainhas nos remansos de água frouxa, lassa.

Poeta e rio cantamos,
cantamos juntos.
Sofrendo canta o poeta
Chorando o rio canta e passa.

Assim vai o São Francisco com suas sandálias de água
dando-se todo e nada recebendo, sem mágoa.
Segue o rio santificado
dando de comer ao pobre
ajudando o precisado.

Súbito, corre o rio em doida carreira -
para o abismo! -
e tomba na cachoeira,
eletrocutado!
Transfigurado o rio lentamente agoniza
e chegando ao mar,
melancolicamente,
se universaliza.

O poeta no exílio lembra o menino do rio
quando o rio era menino e... - fantasia de poeta -
               nas ondas bravias que explodem no costão
               vê pedaços do São Francisco no mar
               chorando com saudades do sertão!

 

 

Fonte:
Poética Ribeirinha – Antologia Literária de Petrolina
Elisabet Gonçalves Moreira
UPE - 1998

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