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BALLET
O corpo
pincel no ar
lápis
no tempo frágil
giz de músculos
desenha
o que jamais se desenha.
Ali.
Somente ali
onde passa o corpo frágil
é o mundo.
Só ali onde reparas.
Todos os demais espaços do mundo -
... aparas!
MACUNAIMADO
O corpo de Anamaíra
é comida de sustança.
É carne, é peixe, é fruta.
Juro que é.
Minha fome vai ficar só na lembrança.
Vou comer Anamaíra, todinha.
Eita festa, eita lambança!
O corpo de Anamaíra -
mangaba-manga,
araçá-pitanga, pitangaraçá,
pitu, tucunaré,
pirabiju, bijupirá,
casquinha de mussuã,
fruta-pão,
tracajá,
jerimum, aipim, macaxeira,
jenipapo, no papo!
Tudinho pra mim.
Vou comer o corpo de Anamaíra
de mansinho.
Dos seios-mãe (gentil pátria amada brasil),
dos seios moles, macios,
dos suaves seios de Anamaíra,
vou fazer pão quentinho.
E daí, sabe,
daí eu me macunaímo,
me encanto todinho
e vou comer pão-de-leite Anamaíra, escondido,
olhando pro mundo lá de cima da folhagem verde de seus cabelos.
Lá
bem no meu.
Quando alguém perguntar:
- Cadê a Anamaíra que tava aqui?
Respondo imitando sagüim
- A Anamaíra que tava aqui?
O poeta comeu, o poeta é saci.
Foi
assim que aconteceu.
BILHETE A MARIA HELENA
Minha filha,
a poesia foi para mim um pássaro sempre a fugir
deixando-me ver apenas à distancia o colorido de suas [penas
a beleza estranha do seu canto.
Às vezes perto de mim, outras, tão distante.
A perfeição poética foi inatingível.
Durante anos guardei os meus poemas imperfeitos.
Neles faltam algo que não tive força para criar.
Pássaro
fugindo numa floresta encantada.
Cantando
e fugindo, assim minha poesia,
minha
poesia perdida.
CANTO SEGUNDO
Rio São Francisco
Canto meu rio
e o rio canta.
Dos poetas e dos rios
o destino é cantar
até que chegue a morte
até que chegue o mar!
Canta meu São Francisco
cantigas antigas
nascidas nas lonjuras do seu largo caminhar.
Hinos de correnteza!
Ladainhas nos remansos de água frouxa, lassa.
Poeta e rio cantamos,
cantamos juntos.
Sofrendo canta o poeta
Chorando o rio canta e passa.
Assim vai o São Francisco com suas sandálias
de água
dando-se todo e nada recebendo, sem mágoa.
Segue o rio santificado
dando de comer ao pobre
ajudando o precisado.
Súbito, corre o rio em doida carreira -
para o abismo! -
e tomba na cachoeira,
eletrocutado!
Transfigurado o rio lentamente agoniza
e chegando ao mar,
melancolicamente,
se universaliza.
O poeta no exílio lembra o menino do rio
quando o rio era menino e... - fantasia de poeta -
nas
ondas bravias que explodem no costão
vê
pedaços do São Francisco no mar
chorando
com saudades do sertão! |