Pelo vaqueiro que vaga
Por Pinto e sua viola
Por Zumbi, o Quilombola
Conselheiro e sua saga
Pelo baião de Gonzaga
E a luta de Virgolino
O barro de Vitalino
Pelo menino de engenho
Por isso tudo é que tenho
(Orgulho de ser nordestino)
NORDESTE INDEPENDENTE
(Imagine o Brasil)
(Ivanildo Vilanova e Braulio Tavares)
Já que existe no Sul este conceito
que o Nordeste é ruim, seco e ingrato,
já que existe a separação de fato
é preciso torná-la de direito.
Quando um dia qualquer isso fôr feito
todos dois vão lucrar imensamente
começando uma vida diferente
da que a gente até hoje tem vivido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Dividindo a partir de Salvador
o Nordeste seria outro país:
vigoroso, leal, rico e feliz,
sem dever a ninguém no exterior.
Jangadeiro seria o senador
o cassaco de roça era o suplente
cantador de viola o presidente
e o vaqueiro era o líder do partido.
Imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Em Recife o distrito industrial
o idioma ia ser "nordestinense"
a bandeira de renda cearense
"Asa Branca" era o hino nacional
o folheto era o símbolo oficial
a moeda, o tostão de antigamente
Conselheiro seria o Inconfidente
Lampião o herói inesquecido:
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
O Brasil ia ter de importar
do Nordeste algodão, cana, caju,
carnaúba, laranja, babaçu,
abacaxi e o sal de cozinhar.
O arroz e o agave do lugar
a cebola, o petróleo, o aguardente;
o Nordeste é auto-suficiente
nosso lucro seria garantido
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Se isso aí se tornar realidade
e alguém do Brasil nos visitar
neste nosso país vai encontrar
confiança, respeito e amizade
tem o pão repartido na metade
tem o prato na mesa, a cama quente:
brasileiro será irmão da gente
venha cá, que será bem recebido...
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
Eu não quero com isso que vocês
imaginem que eu tento ser grosseiro
pois se lembrem que o povo brasileiro
é amigo do povo português.
Se um dia a separação se fêz
todos dois se respeitam no presente
se isso aí já deu certo antigamente
nesse exemplo concreto e conhecido,
imagine o Brasil ser dividido
e o Nordeste ficar independente.
A HISTÓRIA FARÁ SUA HOMENAGEM
À FIGURA DE ANTÔNIO CONSELHEIRO
Num profundo deserto sem ter fonte
Já surgiu um regimento igualitário
Que um justo já sexagenário
Fez erguer-se a cidade Belomonte
Para então vislumbrar um horizonte
Sem maldade, sem crime e sem dinheiro
Sem bordel, sem fiscal, sem carcereiro
Mas, foi morto e tomado por selvagem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio conselheiro
Quem viveu ao seu lado sempre quis
Ter real o que era fantasia
O reinado do céu não prometia
Sim, o reino da terra mais feliz
Afinal só o povo do país
Pode dar o retrato verdadeiro
Deste Líder autêntico mensageiro
Que alguém deformou a sua imagem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro
Masseté, Uauá, Paraguassu,
Caatinga, facheiro, moxotó,
Cambaio, caipã, cocorobó
Monte Santo, Favela, Trabibu,
Beatinho, Abade, Pajéu,
Vila Nova Brandão e Fogueteiro,
Macambira, Lalau e o sineiro
O Timóteo lendário personagem
A história fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro
Canudos país da promissão
Foi injusta e cruel a tua guerra
Tu que eras abrigo dos sem terra
Sem família, justiça, lar e pão
O jagunço era apenas um irmão
O fanático somente um companheiro
Junto ao mestre encontrando paradeiro
Confiança, família e hospedagem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro.
Só o vasa-barris tão solitário
Vive lá como símbolo e uma prova
De Canudos, igreja velha e nova
Linha negra, trincheira, santuário
Malassombro de latifundiário
Coronel poderoso e fazendeiro
Houve mesmo esse reino alvissareiro
Ao qual muitos tomaram por miragem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro
Sertanejos morrendo de magote
A bandeira rasgada era um molambo
O quartel sem guarita era um mocambo
A trincheira era a grimpa do serrote
A metralha um feioso clavinote
Baioneta era a lança do carreiro
A corneta era o búzio do vaqueiro
Guardapeito e gibão sua roupagem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro
Quase dez mil soldados da elite
Quatro bons generais lhe dando apoio
Bivaque, arsenal, bóia e comboio
Com dezoito canhões e dinamite
Numa guerra civil sem ter limite
Não um simples conflito passageiro
Brasileiro matando brasileiro
Os vencidos mostrando mais linhagem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro
Era a luta da foice e do fuzil
O facão enfrentando artilharia
Uma nódoa na honra da Bahia
Uma mancha no nome do Brasil
Mas talvez que no ano de dois mil
Esse nosso Nordeste brasileiro
Seja outro Canudos por inteiro
Com mais gente, mais arma e mais coragem
A História fará sua homenagem
À figura de Antonio Conselheiro. |