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Irene Lage de Britto
(1949 Petrolina/Pernambuco)

 

 


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POEMA PAGÃO

O que é, o que é?
O que há?

- o lado esquerdo soa adágio pianíssimo,
o direito percute a vida em taquicardias;

- a mão esquerda dorme o sono profano,
a direita aborta sem realizar no corpo;

- no cérebro esquerdo, esconderijos assexuados,
o direito esconde rijos embriões;

- um bolero dança emoções em cio,
outro é inerte; e some... poliglota e nu;

- o coração esquerdo cresce maiúsculo em ocaso,
o direito toca herança muda de acaso;

- o peito esquerdo percorre alquimia de viés,
o direito resguarda o credo comum;

- um útero esquerdo profetiza rimas de mulher,
outro cospe métricas de vermelho comportado;

- a língua esquerda sofre quaresma sem tempo,
o tempo da direita contraria a palavra esquerda;

- uma vagina exprime compassos andróginos,
outra espreme, em antídoto, a vida equivocada;

- o olho esquerdo ressuscita a idéia,
o direito desemboca nela a síndrome de íris;

- a chuva esquerda chove azul e azul,
a direita remenda a terra em orgasmos verdes;

- o mundo esquerdo se arrepia em náusea,
ao outro se empresta alopatias;

- a verdade esquerda é prenhe de mistérios gozosos,
a direita asfixia sentimentos de “sem”;

- o eu direito habita, canhoto, o corpo em sacrilégio,
o esquerdo borda, à mão, a alforria do pecado original.

 

NUANCES

eu me entrego
e me dispo
me rezo
e descanso
o que resta...
solidão

me componho
me desejo
me completo
e festejo
o que sobra...
sol e chão.

 

 

rompo o hímen da poesia
quando flagro palavras
em trânsito de estação
acordo arredias
amamento e,
incestuosamente,
nos despimos do cotidiano
brincando fantasias de estar

à revelia do milagre
a mão seduz o branco
ao desafiar seus limites de cor:
- branco, eu te quero verde!
sofro escorrego falsifico rimas
que desafiam a cor dos limites
masturbam o pensamento
e pecam poemas veniais.

 

CANTIGA

O primeiro
exilou-me o mundo
os possessivos de mulher
usurpou minhas entranhas
intimidou-me a silhueta, rosto
escondeu minhas mãos no ocaso.
Fui embora de mim.

O segundo
leu o oriente de meu corpo
vasculhou o endereço da vida
a genética dos sentimentos
devolveu o juízo de minhas mãos
inverteu mandamentos:
alforriei-me.

O terceiro...
(abrimos minha porta principal,
trocamos fronteiras sonoras
invadindo de estranho
as noites de meu dentro,
afinamos nuas mãos onde ruas de nosso nu
brincaram palavras em verbos de prazer)
.... comungou-me.

 

 

Fonte:
Poética Ribeirinha – Antologia Literária de Petrolina
Elisabet Gonçalves Moreira
UPE - 1998

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