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Hideraldo Montenegro
(1957 Moreno/Pernambuco)

 

 


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Indecifrável

O poema que não escrevi
é feito de carne
tem nome largo
e palavras de forma

O poema que não escrevi
dorme comigo todos os dias
revira meus sonhos
torna-se insônia

O poema que não escrevi
come, bebe, faz sexo
e, às vezes, sai pelo nariz

O poema que não escrevi
vive na lama, no lixo
no luxo, na cama

O que poema que não escrevi
é macho, puta, bicha louca
-desenho que não sai da boca

O poema que não escrevi
é leve, é pluma
pesado tiro
é chumbo, é morte
é casulo, é seda
é sorte que não chega

O poema que não escrevi
se inscreve em mim
como cicatriz
como uma dor, um parto
um sapato apertado

O poema que não escrevi
Jamais escreverei

 

IDENTIDADE

Que povo eu sou
que senta comigo no sofá
e que assiste a TV embasbacado?

Que povo eu sou
se não sou um
mas muitos nós?

Que povo eu sou
que vai à missa
e pede perdão e pede clemência
e salvação pelos erros
que cometem conosco comigo?

Que povo eu sou
incompleto e perdido?
Que povo eu sou
que vivo olhando
para o meu próprio umbigo
e não me encontro em mim
mesmo nos outros eus?

Que povo eu sou
se não sou eu?

 

ESPAÇO

Mulher não tem forma
Mulher é prosa
poesia e loja
aliás, mulher tem forma
circular, curva
sem arestas
basta encontrar o centro
a fresta
e penetrar em festa
o útero
que nos espera

O homem não tem forma
O homem tem norma
-limite de sua sola

O homem só se forma
quando decola
da mulher que o assola

A mulher não tem forma
A mulher é elástica, mola
flexível, medula, moda

A mulher só tem forma
Na cabeça de quem a adora

 

VULCÃO

Dentro de você
O vulcão explode
E suas lavas lhe dão prazer

Dentro de você
O mundo para se comer

Você sempre de boca aberta

Dentro de você
Quando o vulcão explode
Você ri de prazer

 

hideraldo2007@yahoo.com.br

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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