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Helder Hortta
(1979 Garanhuns/Pernambuco)

 

 


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CONSIDERAÇÕES SOB O TELHADO

1

Um telhado se assemelha
As serventias de um teto.
Coisas de usar, cobrindo,
como fechando um olho.

Como ferrugem em cadeado,
pragmática, inacessível.
Um solo suspenso como
ferrugem, encimentado.

Um livro e um telhado
conservam a mesma cria,
a de saber das palavras
soletradas, um abrigo.

2

Um telhado se assemelha
quase sempre a uma bolsa.
não as várias, propriamente,
as de coisas de mulher.

As de guardar bens de uso.
Os bens de sua solidez:
os cimentos de mulher.
As vigas de seu telhado.

Uma bolsa tão eficaz,
dessas de se ter a dispensa,
que dizer melhor seria:
de ferramentas de homem.

3

Um telhado se assemelha
a uma veste,uma roupa.
Não tão justo no que veste,
mas no que veste protege.

Uma roupa não esgota
o uso, somente vestida.
Ela ou quem que lhe vista
borda outro uso fora do corpo.

Usamento de desfiles,
onde mais vestimos quem
veste a roupa que a própria
vestinte a roupa, posta.

 

A FAZENDA-MACUCA

Serial:

Nesta Fazenda-Macuca
há diversas direções
ambiguamente destintas:
direções que diferem
daquelas mais eloqüentes:
quer seja a astrolábica,
entre medidas exatas
ou as que se vão pisando
cujo chão fica marcado.
Nesta Fazenda-Macuca
há diversas direções
laterais, internamente.
Os diversos hemisférios
do Macuqueiro-Folião.

Caliban:

Nesta Fazenda-Macuca
há diversas direções:
cada uma em caligrafias
distintas, caligrafias
de instrução farmacêutica,
que é também de educando,
dando-lhe as mesmas curvas.
Direções em cujo olfato
amola o nariz urbano
em esmeril vegetal.

Serial:

Nesta Fazenda-Macuca
o Folião subtrai excessos,
as roupas pesadas do corpo.
Bagagens que lhe empede
de estar se alastrando.
Alastrando as paredes
dos pulmões semi-enfartados.
Alastrando todo o fêmur.
Este que se tem em tempos
de menino. As descobertas
Das nervuras escondidas.
Ou as que se adquire quando
se constitui homem,
onde é mais encimentado
o calibre da ereção.

Caliban:

Nesta Fazenda-Macuca
se permite que o Folião
dispa do corpo a nudez
mais vestida eticamente,
que é aquela nudez
revestida em tapumes.
Se permite que o Folião
dispa a nudez até o osso
ou ao cisto mais interno
de seu despido esqueleto.
(melhor não dizer despir,
termo já muito vestido,
então o diga: raspar-se,
que é menos roupa que o nu.)

Serial:

Nesta Fazenda-Macuca
encontra o ser melhor
chão para seu habitat.
Nesta Fazenda-Macuca
o tempo passa cantando
como sendo transportado
a carro-de-boi, sem óleo.
Passa devagar, andando,
aproveitando o chão,
acrescentando ao pé
urbano todo elástico
reprimido que possui.

Caliban:

Nesta Fazenda-Macuca
vários são os movimentos
que entregam o Folião
em sua única cancela.
Cancela que sob cuidados
o acolhe em telhas de mãe,
telhas de asas de galinha,
entre confortos mais amplos
e acochos comunitários


Serial:

Nesta Fazenda-Macuca
o ser que aqui é chegado
não se gasta no que faz,
se refaz como moenda.
Moenda em cuja máquina
lhe encorpara movimentos:
este de homem-mecânico,
homem que se abastece
no mijo, moído da cana.
Nunca chega a rapadura,
prefere o mole do mijo.


Caliban:

Nesta Fazenda-Macuca,
tanto o corpo obeso
quanto o corpanzil-cengo
adquirem metamorfoses:
a cabeçorra dilatasse
como mulher engravidada.
Dilatasse também os olhos,
vendo em tudo ereção,
tanto no que é mais reles
quanto no que é mais ornado.


Serial:

Nesta Fazenda-Macuca
o ser que aqui é chegado
ao sair deixa uma parte.
Deixa aqui o seu dínamo
ou a força de Folião
que é a força mais flexível
e leva alinhavado ao corpo
um apurado reboco.


Caliban:

Nesta Fazenda-Macuca
são as lubrificações
que deixam o ser mais ágil,
dinâmico-fluentimente.
Tanto para beber mijo:
lubrificando-o por dentro,
limpando toda a sua crosta,
quanto para a oratória,
que não lhe é eloqüente,
fadando a quem lhe ouve,
porém que é amansada
como se fosse um boi.
Como se fosse uma árvore,
como se fosse um homem.
Um homem somente Humano.

 

helderherik@hotmail.com

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

 

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