O processo
de desautomatização do olhar num hai-kai de Paulo Leminski
A poesia - toda - é uma
viagem ao desconhecido.
(Maiakóvski)
> por Bernardo Souto
A Poesia, segundo o poeta pré-romântico
Novalis, é "a religião original da humanidade".
Entenda-se "religião" no sentido etimológico
do termo, ou seja, no sentido de religare (ligar novamente,
atar novamente). A poesia então, dentro desta perspectiva, seria
a busca do elo perdido com o Incognoscível, com a Verdade Original.O
filósofo Bertrand Russell, por exemplo, defende tese bem parecida:
para Russell a poesia é um ser que vive entre as esferas da Filosofia
e da Teologia, tangenciando e nutrindo-se de ambas. Já o escritor
argentino Jorge Luis Borges não enxerga distinção
entre Poesia e Metafísica. Portanto os três, cada um ao
seu modo, concebem o fenômeno poético como algo que não
pode ser meramente circunscrito aos ditames da racionalidade.
No Japão Ancestral, a Poesia
era tida como sagrada, como verbalização da experiência
mística. Era, por assim dizer, a própria expressão
verbal do satori (palavra japonesa que significa, grosso
modo, iluminação metafísica). Forma poemática
nipônica mais conhecida pelos ocidentais, o hai-kai é uma
dos vários caminhos para a manifestação da experiência
Zen. E o que seria, afinal, experiência Zen? As palavras de Murillo
Nunes de Azevedo podem, mesmo que debilmente (visto que a linguagem
jamais será capaz de abarcar toda a complexidade do mundo), ajudar-nos
a entender/ sentir:
é preciso a todos os
momentos cultivar o silêncio como planta tenra, para que possamos
encontrar a solidão no meio do mundo. Cada objeto, cada ser,
cada instante é um mistério pleno de significação.
Debaixo da superfície das coisas está a base última
onde elas se encontram. Cada uma delas é um caminho aberto
com aquele que as sustém em sua grandeza infinita. O encontro
é um ato de silêncio. Pois não há participação
sem silêncio. Silêncio da fonte que brota no deserto.
Do Lótus que desabrocha. Da lágrima que escorre. Tudo
se resume, então, segundo o Zen, na busca de silêncio
no meio de um universo de ruídos. (Zen e as Aves de Rapina.
São Paulo, Ed.Cultrix, 1970, p.14).
Posto o quê, podemos, creio
eu, compreender melhor o poema que se segue:
verde a árvore caída
vira amarelo
a última vez na vida
(Paulo Leminski)
Analisando o hai-kai acima à
luz da teoria defendida por Chklovski no ensaio A Arte como Procedimento,
concluímos que o processo de singularização do
objeto (a árvore, no caso do poema em análise)
utilizado por Leminski dá-se por meio de uma descrição
insuspeitada de um fato aparentemente banal (a saber, a queda de uma
árvore). Assim, através da desautomatização
do olhar - desautomatização esta deflagrada pelo
acréscimo de uma informação nova (de cunho dramático)
no último verso do poema -, o poeta transforma um acontecimento
aparentemente corriqueiro em Poesia. O êxito estético do
poema, portanto, deve-se menos à percepção por
parte do poeta de que as folhas mudam sazonalmente de tonalidade que
propriamente àquilo que Maurice Merleau-Ponty - retomando, ao
seu modo, a noção de ‘estranhamento’ (ostranienie)
dos formalistas russos - chama de "retorno à experiência
do espanto original". Em suma, poeta nos faz, para utilizar uma
expressão de Oswald de Andrade, "ver com os olhos livres",
provocando, assim, uma quebra no horizonte de expectativa do leitor
que o transporta à ‘epifania’ do satori.
BERNARDO SOUTO é Crítico Literário e modesto 'fabbro di versi'. Nasceu na cidade do Recife no princípio da década de 1980.
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