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Gerusa Leal
(1954 Recife/Pernambuco)

 

 


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de(mente)

a mente
(de)mente
mera(mente)
ser

a rosa seca
(no jarro)
a água
(sem açúcar)
beija-flor

poema
(encruado)
que despenca

dizendo o que não quero
(não desisto nem te espero)

 

constatação

um passarinho que esvoaça pela sala
não encontra saída e se deixa ficar

um vaso de violetas no balcão da pia do banheiro
ao lado de uma toalha de rosto amarela

envoltas no mais perfeito silêncio
vozes ao longe, de um encontro familiar
na casa do vizinho

para que mais poesia?

 

sou?

caminhando vou -
fumaça, vôo, nuvem
chuvisco de azul

nuvem de chuva
sabe-se lá porquê
dia de lua

 

balanarriê

Tereza casou com o amigo do filho
um garoto, João, não amava ninguém

não se suicidou

com vento ou sem vento, não foi para isso que nasceu

viveu num marasmo, ficou a saudade
um desastre fatal aquela paixão

morreu de João

 

um drinque depois do banho

corte
perfuração

um corte belo e profundo

no peito

que sangra transparente
que singra para o mundo
sem cura

que sorte

não há o que estanque
o sangue

escorre sem sutura
ferida

de guerra
de briga de bar

não
briga de lar

sem jeito

e chora

na mão a faca afiada
cravada

no gelo da solidão

 

abismo

mesmo no cômodo
rumo do túmulo
mesmo ovo, mesmo novo
mesmo espelho de nuvens
fosso profundo, flor de gelo

 

contemplação

de dentro da imensidão poente
à beira do precipício de mim
contemplo carneiros de algodão
na face impassível de Deus

 

 

Fonte:
Poemas enviados pela autora

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