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Geraldino Brasil
(1926 Atalaia/Alagoas - 1996 Recife/Pernambuco)

 



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PEQUENO POEMA DESNUDO

O poema pode não ter
aquela mágica beleza dicionária.

O poema pode não ter
aquela rima certa no lugar esperado.

O poema pode não ter
aquele ritmo contado nos dedos.

Mas o poema terá de ter
o que o amarelo raquítico tinha
para derrotar o gigante com arma curta.

 

NEM NUVEM NEM POMBO

No meu poema não estará
a beleza das nuvens
pouso dos anjos
que não sustentaram o homem
que caiu do avião.

Nem sou o mágico que faz
do descuido um pombo completo
e o oferece aos aplausos
dos distraídos.

 

A DERROTA

A cidade não saberá do poeta no seu quarto,
seu coração, sua cabeça, a tentativa do poema.

A cidade não saberá
da expressão de beleza
de que flor,
de que amor,
gorou nele.

A cidade não saberá do momento
de pesada carga de dor do homem e de Deus.

 

PROBLEMA DE FAMÍLIA

A família ia bem,
                                 mas o filho mais novo.
A família ia bem,
                                 quebra a casca do ovo.
A família ia bem,
                                 vê a rua, olha o povo.
Um problema, surgiu
                                 um poeta na família.

 

CLASSE MÉDIA

Um médico.
Ótimo na família.

Um executivo.
Ótimo.

Um engenheiro
Um arquiteto
Um magistrado
Ótimo.

Um poeta.
Melhor na família dos outros.

 

DOR, AH SE FOSSES GATO

Dor, dor do mundo, dor das pessoas,
fosses um pássaro e eu um gato sem dono!

Dor do mundo, dor das casas, dor das ruas,
de mim não te livrarias
mesmo que em vez de um pássaro
fosses arisco gato preto comedor de sonhos.

Porque eu levaria meu circo
com jaula de leão faminto
pelas avenidas e ruas e becos do mundo
até a pracinha sonhadora onde é sempre domingo.
Iria, poeta fantasiado de palhaço,
gritando do alto de minhas pernas de pau:

- Um gato vale uma entrada!
- Um gato vale uma entrada!

 

PERDA

Hoje me acordei tarde.
Perdi o frio
de quem desperta cedo
e pode dormir mais.

Perdi o sol que saiu
da moldura da janela

Perdi o canto do pássaro
da manhã na árvore.

Para sempre o perdi.

 

TRISTEZA DA RUA

A tristeza da rua
vem dos que vêm e que vão.
Dos que não querem chegar aonde vão
e vão andando.
Dos que não têm aonde ir
e vão andando.
Dos que não têm pra onde voltar
e vão voltando.
Dos que voltam sem trazer
o que foram buscar.

 

INFÂNCIA

Porque morreu menino
não sofreu a dor, minha,
de ter perdido a infância.

 

BOSQUES DOS LIVROS

Desapareceram aqueles bosques
dos livros de criança.
E os campos não são mais
de águas claras e manhãs
de poucos homens e caminhos.

Agora há mais homens e mulheres do que árvores.
Para os últimos pássaros
há mais bocas que ouvidos.

 

POEMA DA LEMBRANÇA

As mulheres dos meus poemas
não eram minhas, eram
meninas dos seus pais,
alunas dos seus colégios,
ah consolo
inocente dos meus poemas.

Eu tinha quinze anos
e a esperança sorria nos meus poemas.

Hoje não há casa dos pais, de que saiam.
Não há calçada de colégio a que cheguem.
Hoje têm marido
e os filhos não são meus.

 

 

Fonte:
Bem Súbito
CEPE- Companhia Editora de Pernambuco
Recife 1986

 

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