CURVAS DO TEMPO
Correndo nas curvas do tempo
Esbarrei na pobreza
Escarrei na riqueza.
Senti no sentimento
A dor de um detento
Preso por não saber livre ser...
Soprei as migalhas de pão
Senti toda a solidão do povo e do poder.
Cruzei as esquinas da fome
Dos flagelados, os restos do homem
Senti a sede dos sedentos...
No lixo a nua podridão
Em cada rua o preço da ilusão
A miséria à cara dos ruentos.
Cuspi o fogo da indignação
Aos que sugam a cada pão
A cada esquina, a cada ilusão...
Chorei a lágrima da esperança
Em não ver mais teu rosto criança
Com o futuro podridão.
Não li nos teus olhos nada
Mas eu não estava errada
Nada havia tão real...
Mais que a fome, miséria e medo
Dos que aos olhos não é segredo
É pecado capital.
TOQUE-ME
Toque meus seios
Meus meios
Sem fim
Enfim,
Toque em mim.
Toque minha boca
Tão louca
Voz rouca
Sem fala
Declara
O que não se fala.
Toque meu corpo quente
Da chama ardente
Que vem de você...
Sinta meu prazer
Desfazer/fazer
E nos vencer.
Toque minha vida
Lívida, abastecida
Plena, vazia, torta
Morta... toque em mim.
Com seus dedos compridos
Mapeie meus sentidos
No oposto do gosto
Na pressa, na calma
Toque minha alma.
SOU XUCURUS
“Sou Tupã, sou Tupã, sou Tabajara
Tenho uma arara, graúna e xexéu
Todos pássaros do céu,
Quem me deu foi Tupã (...) “
Sou Tupã, sou Tupã, sou Xucurus!
Sou tão pequeno nessa terra de urubus.
Humilhado, ignorado e retirante,
Tão derrotado nessa terra de gigante...
Sou Tupã, sou Xucurus!
Sou Xucurus nessa terra de indulgentes,
Que tem católicos, crentes e descrentes.
Mas o mapa dessa gente
Só quem sabe é Tupã.
Sou Xucurus deslocado e sem terra
Sou avestruz em chouto torto nas serras,
(Quem não produz? Não trabalha? Só consome...)
Que se induz a deixar o seu torrão
Por fazer jus... já nos roubam o frágil nome.
Sou lenda e poesia
E o grito profundo de agonia
Dos que lutam por cada pedaço de chão.
Chão de pesca, de caça, do dia-a-dia
Dos sem peixe, sem água e sem pão.
Sou Xucurus, sou História
Nos rastos espedaçados da memória
De Cimbres, Pesqueira e outras regiões...
Derramo-me pelas águas dos rios
Corto as serras em desafio
Do Agreste aos Sertões.
Sou agrestino desde menino
Meu código é o meu hino
E minha lei é a liberdade...
Pele parda, cabelos escuros,
Olhos pétreos, mas puros,
- a cartilha de uma idade.
Meu canto ecoa nos ventos
Quando ainda durmo ao relento
Ou digo não ao progresso...
Quero correr livre entre os pastos
Cravar na minha terra meus rastos
Dançar ao fogo a cada regresso.
Adoeço e morro à míngua
Não falo a sua língua
Sou Xucurus sem estrada...
Entre a fuga e o perigo
Entre o vôo e o castigo
O procurar e o não ter nada.
Sou ave em vôo rasante
Ferida e sem semelhante,
Sem caminho e sem atalhos...
Índio sem taba, sem raça
Presa de brancos em massa
Curumim quebrado em galhos.
E essa filosofia vã,
Reza o feitiço de ímã
Desperta o sol a cada manhã...
Salta o salto de uma rã,
Faz o vento soprar em afã
E ainda sei o segredo da maçã
Dizem... que quem me deu foi Tupã.
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