LÁBIA (se poesia és)
descasco maçãs
sem ferir a carne,
a tua, alheia – palavra;
como inventar astrolábios
para o teu pássaro
se poesia és
descasco maçãs
à fina pele, como o lábio,
o seio, os teus, áticos;
indeclarável lábia,
ovo que se tece – palavra
se poesia és
ovo que se tece, malsã
palavra por palavra, lábil
substância de sons, maça
que sentidos não fere
à fina pele – verso
se poesia és
O HOMEM À PARTE E SEUS TODOS
A palavra toda aparta
o homem nela acolhe-se,
mínimo, apodera-se
de si mesmo, seus todos,
outros homens soçobram.
O homem todo, à parte,
dói-se em belezas arrancadas
de si mesmo e se farta
de outros homens em sobras.
Que a palavra, como aparte,
toca címbalo no silêncio
do homem, seus todos atordoa,
em outros homens, a parte toda
cinge um modo de ser nódoa.
PARA IGNORAR O SER QUE TE FUNDA
Como não te sei
invento um navio
uma senha, alforjes,
outros amavios
que te forjem pedra e rio
que te saibam lume
ou ave cujo pólen
gere a íris de te ver lírio,
ou vísceras quentes
com que se desvenda
o ser que te funda.
Só para te saber
rasgo pergaminhos,
afrescos, verto heresias,
delato tua lenda, tua parca,
com que me escondo
no nada saber de ti.
Posto ao mar o barco
que te erra,
te derivas enigma
para que te saiba
do meu ser o magma
como não te sei.
UNHAS (nem tão demasiado humano)
corto as unhas,
como a parte que não cabe
dentro da minha humanidade
o que sobra de unhas,
é a parte não roída de humano,
e a humanidade nada perde
corto mais que as unhas,
esse animal crescendo por dentro,
e algo acresce à humanidade:
o lodo do lado de dentro
no todo da minha humanidade,
esse animal cortando por fora.
A FLOR DA ORELHA CORTADA
A Van Gogh
Não só a flor inteira celebra o amor,
Mas a orelha cortada pela mão do amor.
Sendo a flor a orelha cortada de amor,
Redime e perfuma a mão ávida de amor.
Arrancada a flor de tudo que é espinho,
E o amor é orelha cortada ainda espinho.
Não só a flor da orelha cortada é espinho,
Também o amor em calma e fúria é espinho. |