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G. Vieira
(1952 Recife/Pernambuco)

 

 


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LÁBIA (se poesia és)

descasco maçãs
sem ferir a carne,
a tua, alheia – palavra;
como inventar astrolábios
para o teu pássaro
        se poesia és

descasco maçãs
à fina pele, como o lábio,
o seio, os teus, áticos;
indeclarável lábia,
ovo que se tece – palavra
        se poesia és

ovo que se tece, malsã
palavra por palavra, lábil
substância de sons, maça
que sentidos não fere
à fina pele – verso
        se poesia és

 

O HOMEM À PARTE E SEUS TODOS

A palavra toda aparta
o homem nela acolhe-se,
mínimo, apodera-se
de si mesmo, seus todos,
outros homens soçobram.

O homem todo, à parte,
dói-se em belezas arrancadas
de si mesmo e se farta
de outros homens em sobras.

Que a palavra, como aparte,
toca címbalo no silêncio
do homem, seus todos atordoa,
em outros homens, a parte toda
cinge um modo de ser nódoa.

 

PARA IGNORAR O SER QUE TE FUNDA

Como não te sei
invento um navio
uma senha, alforjes,
outros amavios
que te forjem pedra e rio

que te saibam lume
ou ave cujo pólen
gere a íris de te ver lírio,
ou vísceras quentes
com que se desvenda
o ser que te funda.

Só para te saber
rasgo pergaminhos,
afrescos, verto heresias,
delato tua lenda, tua parca,
com que me escondo
no nada saber de ti.

Posto ao mar o barco
que te erra,
te derivas enigma
para que te saiba
do meu ser o magma
como não te sei.

 

UNHAS (nem tão demasiado humano)

corto as unhas,
como a parte que não cabe
dentro da minha humanidade

o que sobra de unhas,
é a parte não roída de humano,
e a humanidade nada perde

corto mais que as unhas,
esse animal crescendo por dentro,
e algo acresce à humanidade:

o lodo do lado de dentro
no todo da minha humanidade,
esse animal cortando por fora.

 

A FLOR DA ORELHA CORTADA

                                      A Van Gogh

Não só a flor inteira celebra o amor,
Mas a orelha cortada pela mão do amor.

Sendo a flor a orelha cortada de amor,
Redime e perfuma a mão ávida de amor.

Arrancada a flor de tudo que é espinho,
E o amor é orelha cortada ainda espinho.

Não só a flor da orelha cortada é espinho,
Também o amor em calma e fúria é espinho.

 

 

Fonte:
Poema enviado pelo autor

 

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