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Frederico Spencer
(1957 Recife/Pernambuco)

 

 


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NO VÉU DA NOITE

Quando o véu da noite cai
em tua cama te desvenda nua
com o sol nas mãos, a manhã:
a linha que divide teu norte
e sul de tuas planícies - a água
escorre, o lodo e o sal:
teu horizonte fremindo nasce
de tudo que virou lamaçal
da noite viva tua agonia:
na cama nua
a noite desce.

 

BOM CONSELHO

Sozinho
neste dia cansado o poema:
sobre a mesa o ofício e a pena
de poesia, carregar o poema
e o ofício de vencer a alma:
quando a vida é pequena
o cansaço de carregar
repartidos espelhos do ser
poeta vale a pena.

 

POEMA ESCRITURÁRIO

Saindo da tarde, o elevador
abre a noite na folha
o poema desertado do dia
na pena escrituraria
a paixão e a fantasia
do pesado dia à poesia.
A noite liberta no fim da tarde
possibilidades até o amanhecer:
o novo dia se fecha no elevador
no décimo andar a contabilidade
desses dias.

 

UMA LÂMPADA ACENDE A NOITE

Fio noites
desesperadamente – acesa
teces fios
na madrugada de sol
a seda das palavras
na manhã acordada
ainda fias
o teu reino – iluminada
espias tuas fronteiras.

 

PIEDADE

O espelho da água
a réstia da luz
teu vão vestido:
a mão do vento
a pele macia da areia
tua derme vestida de sol.
O bico do seio
a penugem da praia
o tráfego das águas
em meus dedos o sal.
O olho da maresia
a espuma do tempo
a dobra da onda
minha nau perdida
de azul se banha
tua manhã estendida:
a tarde a preguiça
as pálpebras do dia
os cílios do sol
a nudez das janelas
dos edifícios
a pele do mar.

 

PARALELO OITO
À cidade do Recife, vestida de papel sobre as águas.

No teu dorso de cidade – a giz
traço no meu caderno tuas rotas
até onde o medo me cabe:
inventário de sombras – pátio aberto
sobre o rio mocambos parasitários
à flor de tua pele
a fé de um deus seu povo viça:
pacífico e atlântico azul
o leste desatado – o sol e o mar
trago do tempo: areia e sal
de teus mapas
a solidão de minhas ilhas.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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