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Franklin Montanha
(1984 Recife/Pernambuco)

 

 


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Água da fonte da praça.

na beira do vaso.
na borda do beco.
no canto da boca.
no copo americano.
nos morangos da madame.
e no ranço remoso da baba
          [do bebê moribundo
          ou do velho bêbado:
          uma ruela de caju
          para tira-gosto
          da fome]
lavando a calçola da velha
saliva dos meninos amarelos
habita a pança dos meninos famintos
e a pança dos meninos empanzinados
a diarréia dos meninos doentes
e a diarréia dos meninos proveitosos
alimenta a fruta boa
lavando a popa
tirando a sujeira
banhando a castanha
lavando a laranja
fazendo lama coma casca da tamarineira
água azeda
água doce
no café solúvel e frio
solvente de cola
pedra velha e molhada debaixo do pé
dentro dos sapatos
suor de cabeceira
peroba nos olhos
a água do sovaco dos molambos é a mesma do sovaco da farda e do paletó
da que escorre entre as coxas das virgens santas, das velhas crentes e das putas convertidas da praça da fonte
da água Maciel Pinheiro,
da que se tem o nojo
que lava o prato da sopa
fermenta o pão dormido
e arde no quarto da cana
água benta
água da chuva
escarro dos tuberculosos
água que escorre da ferida
água inflamada
água de meio dia
na torrente escaldante do meio dia
a água cristã abundante
que mata a sede da fé
dos últimos retirantes
meus ombros escaldados
um copo de suor
um copo de lágrima
um copo de saliva
um copo de cachaça
um copo de água da fonte da urina da praça Maciel Pinheiro
ninguém habita o Recife
o recife líquido. Recife solvente universal. Recife solvido. Oleoso. Gorduroso.
          [A água ungüenta,
          O cheiro da água do mijo]
habita na boca na pança na pele na coxa e na lama do pé de todos que passam pela
praça da fonte da água Maciel Pinheiro.

 

Andorinha

Olha uma andorinha.
Vai voando, tão viva e livre aquela
Andorinha.
Feliz aquela andorinha.
Tranqüila.
Sabe que não há nenhum
Badoque
No recife
Para derruba-la.

Bons tempos em que os meninos
Andavam armados com pedras
Nos dentes e badoques comprados
Facilmente nas feiras.

Corriam alucinados
Tão vivos
Tão livres
Tão tranqüilos
Com uma andorinhanopeito.

Lembro que não era simplesmente
Andorinha.
Era:
UMANDORINHA!
E FLUPT!
Ela caía, mortinha mortinha
Coitadinha.
Lindo isso: andorinhas mortas
Caídas
Bichinha.

Que mágoa triste que eu tenho desta andorinha agora:
Tão feliz
Tão tranqüila
Tão viva
Tão inútil

Se eu soubesse, não morreria sempre de tanta pena
Das andorinhas
Naquele tempo

Ah, se eu soubesse.

Se eu soubesse destes meninos empalhados
Com pedras na boca
No lugar dos dentes
Com armas compradas facilmente nas feiras:

OLHA LÁ! É UM JOÃZIN DO BARRO
UMCRACK
UMCLIC
UMCORRA

PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ PÁ

[As andorinhas morriam mais fácil]

e andorinhas se esvoaçam livres, assustadas e seguras das copas dos pés de árvore
no recife
e
embaixo

um jãozin,
ou um curiózin
de papo amarelo
cara amarela
umadorzinha no peito
mortinho mortinho
coitado.

 

 

Fonte:
Poemas enviados pelo autor

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