MAL ASSOMBRADA
PELEJA DE
FRANCISCO SALES COM O "NEGRO VISÃO"
Senhores, quem é poeta
está sujeito encontrar
com espírito maconheiro
cheio de truque e azar
que na vida foi poeta
morreu inda quer versar.
Digo assim porque comigo
deu-se uma trapalhada:
noite de senhor São João
eu caí numa emboscada
que pensei me acabar
sem ver o fim da jornada.
Já fazia cinco anos
que eu havia abandonado
a arte de cantoria
mas recebi um chamado
para atender um amigo
dessa vez fui obrigado.
Peguei a viola e fui
cheio de neurastenia
era longe e cheguei tarde
na casa da cantoria
já encontrei tudo em festa
na mais perfeita harmonia.
Assim que entrei no salão
logo a viola afinei
e com a ordem de todos
a cantar continuei
porém nos primeiros versos
todo agitado fiquei.
Sentindo um grande calor
e uma tremura geral
como quem estava sentindo
pelo corpo um grande mal
dando a conhecer ao povo
um desarranjo fatal.
Nisso alguém bateu na porta
pediu licença e entrou
era um negro estranho e feio
que a todo mundo assombrou
com uma viola velha
junto de mim se sentou.
E foi dizendo em voz alta
vim pra aqui sem ser chamado
porque gosto de cantar
com cantador preparado
recorde o que aprendeu
se firme e cante animado.
Com essas frases senti
correr o suor na testa
o cabelo arrepiou-se
como quem se desembesta
fiquei todo amortecido
igual quem se manifesta.
Porém vi que era o jeito
abraçar a discussão
dei volta no pensamento
a Deus pedi permissão
mandei o negro seguir
e fiquei de prontidão.
N.V - Ligue o fio umbilical
na esfera mentalista
dentro do quadro da sorte
com sistema realista
desdobrando a consciência
em busca de nova pista.
F.S - Negro, quem és tu assim
com tanto estilo e linguagem
me dizes de onde vens
pelo mundo sem paragem
qual é tua procedência
originada com margem.
N.V - Eu venho dos hemisférios
zodiacais do destino
nasci entre três planetas
em um globo palatino
sou livre igualmente o vento
faço tudo que imagino.
F.S - Mas não é assim que quero
saber sua identidade
me diga seus pais quem são
Estado e localidade
que anos tens, onde vives
não negue a realidade.
N.V - Sou filho de dois cativos
do país dos sofrimentos
já tenho 300 anos
conheço todos relentos
moro nos 32 pontos
que forma a rosa dos ventos.
F.S - Negro, já conheci que tu
não pertence a ser humano
com tua filosofia
me tapeias todo plano
mas quero saber teu nome
para sair do engano.
N.V - Eu me chamo Angó Visão
fui quem instruí Nogueira
Preto Limão, Hugolino
Mufumbão e Pimenteira
andei junto com Romano
e Inácio da Catingueira.
F.S - Credo em cruz, Ave-Maria
Mãe de Cristo redentor
Este negro é o demônio
inimigo traidor
que anda desacatando
os filhos do criador.
N.V - Você já vem com parolas
como fez Joaquim Sem Fim
botando santo no meio
e me chamando ruim
fazendo a mesma besteira
para ver se ataca a mim.
F.S - Todo mundo tem direito
de defender seu papel
só você não se defende
por ser infame e cruel
porém eu tenho por mim
Jesus Cristo e São Miguel.
N.V - Eu não empato você
ter lá sua devoção
nem fazer seu fraseado
com santos e oração
eu quero é cantar repente
e dar-lhe uma lição.
F.S - Quem é você tão sabido
pra conhecer mais do que eu
nem rebaixar o poder
que a natureza me deu
se veio com essa idéia
pode dizer que perdeu.
N.V - Essa sua natureza
eu conheço ela a fundo
sou capaz de descrever
toda origem do mundo
desde o mais potente ser
ao mais péssimo vagabundo.
F.S - Você faz parte da fera
que iludiu Adão e Eva
manchando a lei do dever
com o fruto da reserva
mas não pense que me arrasta
para o caminho da treva.
N.V - Adão e Eva pecaram
por uma contradição
mas aquilo foi somente
para haver a geração
mesmo sem haver pecado
não havia salvação.
F.S - Mas a culpa de Adão
foi por causa da serpente
que atacou de surpresa
a pobre Eva inocente
e fez ambos se perderem
pelo pecado somente.
N.V - Mas o eterno por ser
um juiz tão poderoso
para que deixou Lusbel
entrar no jardim mimoso
e botar Adão e Eva
no pecado rigoroso?
F.S - Negro, não seja tão ruim
querendo a Deus maltratar
você sabe que Lusbel
foi autor de todo azar
por se ver perdido quis
a nossos pais complicar.
N.V - É certo que Adão tem culpa
porque a lei transgrediu
mas quando Lusbel pecou
e lá do trono caiu
pra não entrar no jardim
por que Deus não proibiu?
F.S - E por que foi que Lusbel
quando ficou lá no trono
substituindo a ordem
de Deus eterno patrono
orgulhou-se e propôs guerra
querendo do céu ser dono.
N.V - Aquilo foi pra poder
dar começo às gerações
pois o eterno podia
ter privado essas razões
mas deixou Lusbel assim
para cumprir-se as lições.
F.S - Negro, você não tem jeito
de se chegar na verdade
mas eu vou tirá-lo agora
com o credo da trindade
para nunca mais zombar
do grande Deus de bondade.
N.V - Veja que asneira sua
falando em reza pra mim
se reza salvasse gente
não havia ninguém ruim
eu conheço tudo isso
do começo até o fim.
F.S - Mas na reza tem prodígio
que nos faz admirar
quem não se benze e não reza
não pode a Deus alcançar
fica assim como você
de mundo a fora a atentar.
N.V - Eu não ando atrás de reza
que não sou padre nem papa
ando atrás de quem canta
com consciência no mapa
e o mais sabido do mundo
das minhas mãos não escapa.
F.S - Você diz assim porque
é triste inconscencioso
já perdeu todos direitos
de nosso Deus poderoso
não sabe o que é verdade
só ver o quadro horroroso.
N.V - Eu conheço a descendência
de Adão, Eva e Abraão
Moisés, David e Jacó
Manassés e Salomão
mas nunca vi nenhum salvo
por valor de oração.
F.S - Se oração não valesse
Jesus não tinha orado
São Pedro e todos apóstolos
nenhum tinha acompanhado
a religião dos santos
para abater o pecado.
N.V - O Cristo orou porque quis
mas já tinha a salvação
e por isso qualquer um
se meta nessa ilusão
reze e não pratique o bem
pra ver se tem o perdão.
F.S - Negro, você me parece
que foi materialista
desses que só dar valor
no que pega e está a vista
protesta toda verdade
difamador anarquista.
N.V - Não queira saber quem sou
nem me julgue bom ou mau
cante mesmo se souber
e se defenda no grau
se tiver cantiga bote
ou entregue o lombo ao pau.
F.S - Eu canto porque conheço
rima, métrica e posição
sentido, frase e conjunto
sistema e complicação
não é pra um negro imundo
vir a mim passar lição.
N.V - Homens de muita ciência
como Leandro e Zé Duca
Romano, Hugolino e outros
precisaram minha ajuda
quanto mais um Zé Ninguém
que na vida nada estuda.
F.S - Negro, não seja gabola
naquilo que não convém
seu estado miserável
e consciência não tem
um infeliz como tu
nunca ajudou a ninguém.
N.V - Você é quem diz assim
por não ter compreensão
mas provo que Pedra Azul
Ventania e Azulão,
Serrador, Carneiro e Lino
a todos eu dei lição.
F.S - Esses homens foram mestres
da poesia simbólica
enquanto vivo seguires
a religião católica
não precisaram de ti
e nem da força diabólica.
N.V - Pedro Limão e Quirino
e Josué de Teixeira,
Pirauá, Laurindo e Gato
e Manuel Cabeceira
eu defendi muito eles
no braço da regra inteira.
F.S - Meus senhores do salão
cada um traga uma cruz
e vamos rezar o credo
no claro da santa luz
pra desterrar este negro
inimigo de Jesus.
N.V - Você pensa que reza santa e cruz
me faz medo de noite nem de dia
se previna e chame por Maria
para ver se ela te conduz
faça força que hoje vim apuz
de enfrentar um poeta em todo artigo
não me assombro, não corro e prossigo
da forma que quiser eu também quero
de qualquer lado que vir eu lhe espero
não há santo que lhe empate ir comigo.
F.S - Mas eu creio em Deus Pai e Poderoso
que criou o Céu e a nossa terra
também criou em Jesus aonde encerra
o poder de um astro glorioso
um só filho do espírito venturoso
Divino Cordeiro e inocente
que padeceu pelos homens cruelmente
foi perseguido, preso e arrastado
para com seu sangue imaculado
nos livrar das ciladas da serpente.
N.V - Você pensa que com isso se defende
mas para mim és maluco e muito fraco
de qualquer feito te boto no bisaco
e a força de meu braço é quem te prende
meu poder hoje aqui ninguém suspende
vou provar-te daqui a meia hora
que tu chegas a meus pés e me per si
nem te Cristo te livra hoje aqui
de um acocho da alma pular fora.
F.S - Meus senhores da sala é necessário
arranjar-se um cordão e água benta
pra lançar-se esta fera violenta
com a força da Virgem do Rosário
e pedimos a Cristo do sacrário
que nos mande o anjo Gabriel
descer com o Arcanjo São Miguel
trazendo a espada e a balança
para ver se nos livra desta trança
e expulsar esta fera tão cruel.
N.V - Vem você com rosário e com Maria
se valendo de medalha e balanceiro
chamando por todo alcoviteiro
que não há precisão em cantoria
mas não pense que com esta bruxaria
me faz medo nem me tange num segundo
e meu astro é teórico e tão profundo
como a luz que clareia a imensidade
eu também tenho força e liberdade
pra fazer qualquer coisa neste mundo.
F.S - Venha a mim São Gregório e São
Bernardo
Santo Cristo do Ipojuca e São José
São Francisco padroeiro em Canindé
São João Batista e São Ricardo
Santo Antônio de Lisboa tão amado
São Severino dos Ramos padroeiro
São Jorge com a lança de guerreiro
Defendei-me das portas do inferno
São Pedro com as chaves do eterno
me guardai deste negro traiçoeiro.
N.V - Não é com isto que pensa que
me atrasa
nem me faça correr de sua vista
vamos ver quem ganha esta conquista
e quem corre primeiro desta casa
quero ver se você não se arrasa
cantando comigo este duelo
que sou forte no perigo e no flagelo
e não temo enfrentar um cantor só
você estando nas unhas de Angó
não há santo que o livre do cutelo.
F.S - Maria imaculada Mãe de Cristo
pelo verbo encarnado em vossa luz
defendei-me com o nome de Jesus
e vinde a mim pra ver se eu resisto
não deixai que aqui o anti-Cristo
lance mão de mim e mais alguém
protegei-me Maria sumo bem
pelo sangue que banhou a Santa Cruz
e hora divina que Jesus
foi nascido na gruta de Belém.
N.V - Arre com tanto pedido
deste cantor tão teimoso
só fala em santo e rosário
isto é que é ser caviloso
nem canta e só dá maçada
com este abuso horroroso.
Levantou-se da cadeira
rodando em cima de um pé
e disse: - Eu não canto mais
porque estou dando fé
quem discutir com um doido
é esgotar a maré.
E nesse momento o galo
cantou saudoso e bonito
o negro se remexeu
soltou um tremendo grito
fez corrupio na sala
e se sumiu o maldito.
Todo povo que estava
ali na reunião
sentiu um cheiro abafado
de breu, enxofre e carvão
rezaram o credo e o ofício
da Virgem da Conceição.
Faço ponto, meus amigos
Sobre a tremenda porfia
A todos peço desculpas
Lendo esta poesia
Espero de cada um
Sua boa garantia.
A embolada da velha chica
A velha chica
Que morava no fundão
Lá em cima do sertão
Na beirada da estrada
Passava o dia
No batente cochilando
Pegando pulga e matando
A comendo com qualbada
Essa velha
Parecia uma serpente
Banguela só tinha um dente
E a venta arribitada
Tinha um tumó
Na ponta da espinhela
Do tamanho de uma gamela
E uma perna esconchavada
E no lugar
Que estava cochilando
Pelo beiço era pingando
Uma baba amarela
No couro dela
Tinha tanta mucurana
E piolho de cigana
Que chega estava pelada
Era conhecida
por sá Chica rezadeira
passava a semana inteira
só rezando ajoelhada
Com uma trouxa
Cheia de cinza e molambo
Rezava dor de estambo
Dor de dente e junta inchada
Rezava nervo
E também ventre caído
Quarto duro e dor de ouvido
Queimadura e pá quebrada
De enxaqueca
De sol na cabeça e lua
Doença de meio de rua
Gastura e barriga inxada
Erizipela
Golpe boba e 7 couro
De picada de besouro
E serpente envenenada
E além disso
Era forte macumbeira
Não houve catimbozeira
Pra dela tomar chegada
E os preparos
Que essa velha possuía
Para fazer bruxaria
Vou contar sem deixar nada
Tinha um cambuco
Que ela arrumou na praia
Com 3 rabos de lacraia
E uma coruja pelada
Numa mochila
Tinha as pernas de 1 cancão
Três caroços de pinhão
E uma unha de viada
Noutro cambuco
Tinha o couro de um quandu
E também um cururu
Com a boca costurada
Uma cauã
E 7 cavalos do cão
Pendurado no cordão
Na cozinha fumaçada
Jurema preta
E terra de cemitério
Pra fazer todo mistério
Com raiz de encruzilhada
Meus leitores
Essa velha era um perigo
Tinha tanto inimigo
Que só uma excomungada
Era bastante
Ela ter raiva de um
Passava o dia em jenjum
Preparando a panelada
Quando queria
Fazia gente correr
Moça casar sem querer
Se apartar mulher casada
Fazia gente
Morrer de catimbó
Magro igualmente um cipó
Caído pela estrada
Na vizinhança
Tudo tinha medo dela
O povo dizia aquela
Pelo diabo foi mandada
A sua fama
Espalhou-se na nação
Todo povo do sertão
Tinha medo da danada
E quem passava
Pela sua moradia
No pingo do meio dia
Via a bruta ajoelhada
Ao redor dela
Tinha um gato derrengado
E um sapo pendurado
Junto à velha desgraçada
Meus senhores
E a velha assim vivia
Preparando bruxaria
e fazendo presepada
No sertão
Do Rio Grande do Norte
Essa velha era forte
Pra mexer a panelada
Mas certo dia
Essa velha adoeceu
Vou contar o que deu
Com a bruxa envenenada
Secou um pé
E entronchou o cabelouro
E nasceu um sete couro
A velha ficou piada
Veio a febre
Atacou-a de repente
Mas a bicha renitente
Tomando por caçoada
Na língua dela
Um tomó se apresentou
Nunca mais ela falou
Lá num canto derrubada
E começou
A maldita se acabando
Fedendo muito e secando
Toda troncha esculhambada
Chegou um bicho
Com as unhas de espeto
Uma gia e um gato preto
E cercaram a condenada
E uma cabra
Pretinha sem ter sinal
Junto à velha infernal
Mordendo dando chifrada
Mosquito e besouro
Aranha e caranguejeira
Toda raça mordedeira
Mordia a velha malvada
Com poucos dias
Dona Chica do fundão
Pediu vela e um caixão
E mortalha costurada
A vinte e quatro
De agosto ao meio-dia
Deu na velha uma agonia
E morreu a desgraçada
Quando morreu
Começou a chegar gente
Dizendo essa serpente
Morreu tarde e atrasada
A vizinhança
Se ajuntou para enterrá-la
Mas na hora de levá-la
A bicha ficou pesada
Botaram ela
Prá levá-la num caixão
O testo caiu no chão
A velha ficou deitada
Trouxeram um carro
Puxado a quatro bois
Quebrou-se a ponta de dois
Só puxando a condenada
Foram arrastá-la
Prá levar pro cemitério
Apareceu um mistério
Ao redor da excomungada
Um bode preto
Começou fazendo um jogo
Um gato dos olhos de fogo
Miando e dando dentada
Veio um enxame
De abelha de exu
E chegou um urubu
Com a cabeça encarnada
Foi tanto sapo
Que chegou ao redor dela
Com uma baba amarela
Que a velha ficou banhada
Chegou um negro
Da grossura de um graveto
E trazia um livro preto
Com as culpas da malvada
O negro disse
Afasta povo não se oponha
Que esta velha sem vergonha
Não pode ser enterrada
Abriu o livro
E as páginas foi passando
Em toda folha mostrando
A velha fotografada
O negro disse
Esse livro é todo dela
Vou levar esta cadela
Que a tempo está comprada
E quando o povo
Viu o negro assim dizendo
Todo mundo foi correndo
Deixaram lá a finada
E nesta hora
Deu um forte pé de vento
Naquele mesmo momento
Foi a velha carregada
Nesse dia
Para cá lá no fundão
A velha Chica buzão
Vive lá acocorada
E quem passar
No fundão não volta mais
Que a velha corre atrás
Até uma encruzilhada
Se o leitor
Não levar um folhetinho
Encontra a velha no caminho
E ela dá-lhe uma dentada
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