| BLACK SABBATH
Quero as manhãs incendiadas.
O resto do dia diabo aceso
As cabeças das mães degoladas
O monge da paz num poço preso.
Que despenquem das varandas
Flores de bálsamo perfumadas.
Venham ungidas de lavanda
As faces das crianças maceradas.
Que o golpe destro do punhal
Esfrie o sabor da língua.
As vísceras deixemos ao chacal
Ou morram mesmo à míngua.
Que o ódio atropele o amor
Não se dê à paz morada.
O mundo seja um barril de dor
A rolar incessantemente pela escada.
EPITÁFIO N° 529
Não vou a enterros.
Que o morto
Se guarde no que é seu.
Se incorro em erro,
Perdoem-me: irei ao meu.
FANTOCHES
Os fantoches da rua Sete
Seguem cegos na procissão.
A puta diurna da Palma
Traz uma venérea na alma
E uma cova diária na mão.
Da Ponte Velha a secular ferrugem
Reticente ao trajeto branco da nuvem
Come o estrado, o arco, o vergão.
Os poetas esquecidos no beco
Transam sangue a trago seco
Dormem como trapos sobre chão.
Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão.
DESUMANO
Dá-me Deus um deus melhor
Não este deus azul
Este deus que as mãos cálidas clamam
Este deus senecto, rendez-vous.
Dá-me Deus um deus diferente, menor
Um deus com a cara suja de poeira
E que deite e durma e sonhe
E que se sente à mesa e coma
Os frutos que da terra hão de vir
Cantarole, lírico, uma velha canção
Depois desate a sorrir.
Dá-me Deus um deus humano
Como deus outro nenhum
Sem quaisquer obrigações divinas
E que ante a realidade das ruínas
Não se preste a milagres
Nem se preste a jejum
Dá-me Deus um deus comum
PERISPIRITUAL
A gente muda
Se transmuda ao além.
Pega de um bonde
Sem lá nem onde
Sem proust nem pound
Sem nenhum vintém.
A gente muda
Dizendo-muito bem
Nenhuma bagagem
Nenhuma linguagem
Na treva do trem.
DELETAR-ME
Não sei se vôo a marte
Ou se vou à morte.
O CIRCO
Este aqui é meu esquema
Me fazer de mico
Se não é no poema
Decerto é no circo.
Norma, esta pequena
E nela me arrisco:
Se faço o poema
Faço também o circo.
Não sei se vá ou fico
O amor me condena
Mas é no poema
Onde armo meu circo. |