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Francisco Espinhara
(1960 Arcoverde/Pernambuco - 2007 Recife/Pernambuco)

 

 


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BLACK SABBATH

Quero as manhãs incendiadas.
O resto do dia diabo aceso
As cabeças das mães degoladas
O monge da paz num poço preso.

Que despenquem das varandas
Flores de bálsamo perfumadas.
Venham ungidas de lavanda
As faces das crianças maceradas.

Que o golpe destro do punhal
Esfrie o sabor da língua.
As vísceras deixemos ao chacal
Ou morram mesmo à míngua.

Que o ódio atropele o amor
Não se dê à paz morada.
O mundo seja um barril de dor
A rolar incessantemente pela escada.

 

EPITÁFIO N° 529

Não vou a enterros.
Que o morto
Se guarde no que é seu.
Se incorro em erro,
Perdoem-me: irei ao meu.

 

FANTOCHES

Os fantoches da rua Sete
Seguem cegos na procissão.

A puta diurna da Palma
Traz uma venérea na alma
E uma cova diária na mão.

Da Ponte Velha a secular ferrugem
Reticente ao trajeto branco da nuvem
Come o estrado, o arco, o vergão.

Os poetas esquecidos no beco
Transam sangue a trago seco
Dormem como trapos sobre chão.

Recife, musa, maldição
Cadela suja, traiçoeira
Seta certeira
Encantada cidade do cão.

 

DESUMANO

Dá-me Deus um deus melhor
Não este deus azul
Este deus que as mãos cálidas clamam
Este deus senecto, rendez-vous.

Dá-me Deus um deus diferente, menor
Um deus com a cara suja de poeira
E que deite e durma e sonhe
E que se sente à mesa e coma
Os frutos que da terra hão de vir
Cantarole, lírico, uma velha canção
Depois desate a sorrir.

Dá-me Deus um deus humano
Como deus outro nenhum
Sem quaisquer obrigações divinas
E que ante a realidade das ruínas
Não se preste a milagres
Nem se preste a jejum
Dá-me Deus um deus comum

 

PERISPIRITUAL

A gente muda
Se transmuda ao além.
Pega de um bonde
Sem lá nem onde
Sem proust nem pound
Sem nenhum vintém.

A gente muda
Dizendo-muito bem
Nenhuma bagagem
Nenhuma linguagem
Na treva do trem.

 

DELETAR-ME

Não sei se vôo a marte
Ou se vou à morte.

 

O CIRCO

Este aqui é meu esquema
Me fazer de mico
Se não é no poema
Decerto é no circo.

Norma, esta pequena
E nela me arrisco:
Se faço o poema
Faço também o circo.

Não sei se vá ou fico
O amor me condena
Mas é no poema
Onde armo meu circo.

 

 

Fonte:
Marginal Recife
Coletânea Poética I
Recife 2002
Prefeitura do Recife - Secretaria de Cultura Cidade do Recife
Organizadores: Cida Pedrosa, Miró e Valmir Jordão

 

INTERPOÉTICA © 2005 Cida Pedrosa & Sennor Ramos