| EQUILIBRISTA
Tocávamos clarinetes na corda bamba
subíamos às altas torres do Egito
passeávamos de pára-quedas
no sol sem fim dos dias de fogo
subíamos à capota do avião
por cima das nuvens
recitávamos poemas à lua
tocando nela.
Andávamos nos parapeitos dos edifícios
de um pé só na balaustrada dos abismos
não caímos dos fios metálicos do circo
andando de cabeça para baixo
nem do alto da torre Eiffel correndo sonâmbulo.
Só na vida é que não nos equilibrávamos.
CÂNCER
Esse amor é um câncer luminoso
fibra por fibra a remoer-me a carne
e a febre interior que nele vibra
abrasa-me também dentro da alma.
Essa mancha de luz que dói meu corpo
denso câncer a arder, doce metástase,
reacende a insônia de meu sangue
e abraça-me por dentro, corpo e alma.
É todo um novo abismo no meu sonho
essa lâmpada acesa no meu corpo
o acre vinho nas veias derramadas.
É algo estranho e novo nas entranhas
(o tumor de te amar) e a sua trama
a ocupar o meu corpo como um câncer. |