O casamento de
Mariazinha
A você peco licença
Para uma estória contar
Das coisas do meu sertão
A você eu vou falar
É uma estória bonita
Você pode acreditar
Com bastante fé em Deus
Vou seguindo sem parar
Olhando mais para o futuro
Digo sem titubear
Para o povo do meu Sertão
Uma estória eu vou contar
As coisas do meu Sertão
A você passo a contar
Quando eu tinha quinze anos
Comecei a namorar
Com Rita Mariazinha
Só pensava em me casar
Meu namoro era escondido
Você pode acreditar
Quando era a tardinha
Na capela do lugar
Encontrava Mariazinha
Terço na mão a rezar
Muito eu ficava contente
Com meu jeitinho de olhar
Pegando na sua mão
Começava a lhe falar
Olhando bem nos seus olhas
Um beijinho ia lhe dar
Ela era muito cismada
Começava a reclamar
Olha o padre na igreja
Olha o santo no altar
Gosto muito de você
Mas temos que esperar
Quando eu saia dali
Era um tanto preocupado
Só pensava em trazer
Mariazinha a meu lado
A mente estava em conflito
Eu estava apaixonado
Despedia-se um do outro
Cada qual mais apreçado
A noite quando chegava
Relâmpago para todo o lado
Era época de inverno
Chegava em casa molhado
No outro dia seguinte
Já o relâmpago parou
O céu estava mais claro
A chuva também cessou
Novamente para a igreja
Aquela moça voltou
Como era de costume
Eu sair junto com ela
De mãos dadas no caminho
Parecia uma novela
Cada um mais apressado
Lá estávamos na capela
Muita gente lá rezava
O sino sempre a tocar
O padre bem pontual
Começava a celebra
Só eu e Mariazinha
Num cantinho a conversar
Olhando um par e outro
Cada qual a suspeitar
O meu coração coitado
Todo instante a palpitar
Sonhando com aquele beijo
Que ela tinha para me dar
Ela me dava esperança
De comigo se casar
Mais e mais apaixonado
Não via esse dia chegar
Esse amor incontido
Não deixava eu sossegar
Um dia muito animado
Em uma tarde daquelas
Deixando de lado o medo
Pois eu só pensava nela
Tomei uma decisão
E fui falar com o pai dela
Cheguei na casa do velho
Quase sem poder falar
O corpo todo tremia
As pernas sem sustentar
O velho disse se sente
Para poder conversar
Então eu disse para ele
Eu não vim a demorar
Com o senhor e sua esposa
Eu preciso conversar
Peço a mão de Mariazinha
Pra com ela me casar
Se o senhor me aceitar
Como seu genro querido
Vou zelar de sua filha
Conforme o prometido
Garanto por o sagrado
Que serei um marido
O velho falou meu rapaz
Como é de obrigação
O pai criar uma filha
E dar pra um cidadão
Aceitar o casamento
É a minha opinião
Ali mesmo foi marcado
O dia do grande evento
O velho muito solícito
Sem nenhum acanhamento
Acertou com o vigário
O dia do casamento
A noticia se espalhou
Por todo o canto do mundo
Vai se casar Mariazinha
Filha de Dr. Raimundo
E de Dona Maria Rosa
Que seja um enlace fecundo
Bem próximo do grande dia
Tudo já se preparava
Mariazinha contente
Bem mais contente eu estava
A esperar com alegria
Em outra coisa eu não pensava
O altar estava bonito
Todo o povo a esperar
Quando na igreja entramos
Todos felizes a cantar
As canções que só o amor
É capaz inspirar
A final chegou à hora
Da mais incontida emoção
O padre acompanhado
Por o nobre Sacristão
Realizou o sacramento
Consagrando a união
Terminado o casamento
O padre se retirou
Ali mesmo no altar
O noivo, a noiva a beijou.
Todos ali bateram palmas
Tudo se concretizou
Na casa do pai da noiva
A festa foi de rachar
Convidaram um sanfoneiro
Era o melhor do lugar
O terreiro ficou cheio
O povo todo a dançar
Viva o noivo, viva a noiva.
Convidados assim gritavam
Era grande a satisfação
De todos que ali estavam
Vizinhos, amigos e parentes.
Ali se confraternizavam
Chegou o final da festa
Todos estavam enfadados
O sanfoneiro parou
Bastante realizado
Pois no bolso da algibeira
Lá estavam alguns trocados
Casou-se Mariazinha
Com João Freitas de Aguiar
Foi à festa mais bonita
Que houve nesse lugar
São essas docer lembranças
Que não canso de narrar. |